Uma equipe internacional de paleontólogos identificou no Reino Unido o fóssil de um peixe com uma inovadora estratégia de alimentação, nunca antes documentada em espécies de sua época.
Trata-se de Platysomus parvulus, um peixe com barbatanas radiadas que viveu há 310 milhões de anos e desenvolveu uma mordida lingual, um mecanismo que lhe permitia triturar presas duras como insetos e conchas.
O que é a mordida lingual?
Uma ferramenta evolutiva que substitui ou complementa o uso das mandíbulas.
Ao contrário da maioria dos peixes atuais que usam suas mandíbulas para mastigar, alguns grupos evoluíram uma segunda estrutura de mordida: a mordida lingual. Esse sistema consiste em conjuntos opostos de dentes, localizados no palato e no esqueleto branquial, que trabalham juntos para agarrar, esmagar e processar alimentos.
Até agora, o exemplo mais antigo dessa adaptação remontava a 150 milhões de anos atrás, o que torna o Platysomus parvulus um registro fóssil sem precedentes.
Reconstrução digital e descobertas anatômicas
Tomografias de alta resolução revelam placas dentárias complexas e estruturas especializadas.
O fóssil foi descoberto em formações do Carbonífero em Staffordshire, Inglaterra, e apresenta uma conservação tridimensional excepcional. Graças à tomografia computadorizada, os pesquisadores puderam:
- Visualizar placas dentárias no palato e na base da boca
- Identificar eletrocitos pontiagudos em uma única camada
- Detectar uma fase de transição para sistemas mais avançados, como os observados no gênero Bobasatrania

Um elo perdido na evolução alimentar dos peixes
O coautor Dr. Matthew Kolmann, da Universidade de Louisville, descreveu o Platysomus como um intermediário evolutivo entre os peixes com mandíbulas convencionais e aqueles que dependem exclusivamente de sua mordida lingual para se alimentar.
Essa inovação permitiu aos peixes expandir sua dieta e se adaptar a novos ambientes após a extinção em massa do final do Devoniano.
Inovação pós-extinção: o surgimento de novas estratégias
A mordida lingual como parte de uma onda evolutiva após uma crise ecológica.
O autor principal Prof. Sam Giles, da Universidade de Birmingham, explicou que após a extinção do Devoniano, os peixes começaram a experimentar novas formas corporais e modos de alimentação.
A mordida lingual evoluiu várias vezes em diferentes linhagens, incluindo espécies modernas como a truta e o macabí, demonstrando sua eficácia adaptativa.
Ecosistemas antigos e linhagens modernas: uma conexão evolutiva
O professor Matt Friedman, da Universidade de Michigan, destacou que essa descoberta permite reconstruir como os ecossistemas do Carbonífero funcionavam e como surgiram as linhagens modernas de peixes.
A mordida lingual é apenas uma das muitas inovações alimentares que surgiram nesse período de rápida diversificação evolutiva.
Foto da capa: Joschua Knupp



