Os tubarões e raias de profundidade enfrentam uma ameaça silenciosa no Atlântico Sul. Sua biologia —de crescimento lento, baixa fecundidade e poucas crias— não resiste à pressão pesqueira atual.
Esta semana, em Rawson e Puerto Madryn, são apresentados dados inéditos que buscam preencher o “buraco negro” de informação que impede proteger o que não se vê.
Um equilíbrio complexo: legislação, ciência e manejo pesqueiro
Proteger os grandes predadores do mar profundo não é uma tarefa simples nem unidimensional. Requer um delicado equilíbrio entre legislação, ciência e manejo pesqueiro.
O Dr. Nelson Bovcon, pesquisador do CONICET e referência em fauna marinha, resume com clareza:
“Não há uma receita exata para dizer qual é a melhor ação para minimizar o impacto, mas sabemos que as áreas protegidas funcionam e são fundamentais. Também o são as zonas de proibição e a correta identificação das capturas para saber quanto se pesca de cada espécie.”
O debate sobre as artes de pesca
Um dos pontos mais sensíveis é a modificação das artes de pesca, especialmente na pesca de arrasto, o método mais difundido na plataforma. Bovcon adverte que é difícil reduzir drasticamente as capturas incidentais, mas propõe avaliar detalhes técnicos:
- Na pescaria de camarão, estudar se reduzir a abertura vertical da rede ajuda a diminuir a entrada de peixes acompanhantes.

Ciência para a conservação
O debate ganha nova relevância esta semana com o Encontro GEMPA 2025, organizado pelo Governo de Chubut e o Grupo de Estudo do Mar Profundo da Argentina.
O disparador foi a expedição Talud IV, quando o navio Falkor (too) e seus robôs submarinos transmitiram ao vivo o fundo do mar argentino, cativando milhares de pessoas. Para os biólogos, essas imagens são mais que um espetáculo: são a evidência necessária para justificar medidas de proteção.
Uma biologia vulnerável em um mar industrializado
Os tubarões de profundidade têm uma estratégia reprodutiva lenta:
- Baixa fecundidade.
- Poucas crias por ano.
- Longevidade extrema.
- Maturidade sexual tardia.
Algumas espécies nem sequer se reproduzem todos os anos. Essa lentidão natural colide com a velocidade da indústria pesqueira.
O pesquisador Alejo Irigoyen (CESIMAR-CONICET) explica:
“Por estarem naturalmente em baixa densidade, suportam taxas de extração muito baixas. Qualquer pressão pesqueira, ou mesmo a captura incidental, reduz suas populações fortemente.”
O problema dos dados: um “buraco negro”
Para proteger, é necessário saber o que há e quanto há. No entanto, a Patagônia apresenta um déficit histórico de informação em comparação com outras regiões.
Irigoyen admite:
“Na Patagônia não temos séries de dados, acompanhamentos nem estimativas populacionais robustas.”
O que existe é a memória dos pescadores, que percebem uma redução nas capturas de espécies como o gato pardo, o cação ou o bacota.
Tecnologia para ver o invisível
A utilização de ROV (Veículos Operados Remotamente) permitiu identificar espécies de águas frias como o tubarão Somniosus antarticus ou o tubarão cinza (Hexanchus) em seus refúgios naturais.
Essas observações fornecem informações inéditas sobre seu comportamento e habitat, longe das redes que os capturam sem contexto.
Agenda: conhecer para legislar
O Encontro GEMPA 2025 busca socializar essas descobertas e gerar pressão social para impulsionar Áreas Marinhas Protegidas eficientes. A combinação de evidência científica, memória dos pescadores e divulgação pública é chave para avançar em direção a uma gestão pesqueira sustentável.
Os tubarões e raias de profundidade enfrentam uma tempestade perfeita: biologia frágil, sobrepesca e falta de dados. A ciência e a tecnologia oferecem ferramentas para visibilizar o invisível, mas a proteção efetiva dependerá da capacidade de legislar e gerir com urgência.



