A transição energética global reproduz um “colonialismo verde” na América Latina, adverte Oxfam antes da COP30

Um novo relatório revela a transição energética global onde a região possui 70% do potencial renovável mundial, mas recebe apenas 3% do investimento, enquanto enfrenta uma dívida climática crescente e a maior taxa de violência contra defensores ambientais.

Às portas da COP30, que terá lugar na região amazônica, a organização Oxfam lançou um severo alerta sobre o rumo atual da transição energética global. Segundo sua mais recente análise, este processo vital para mitigar a crise climática está sendo capitalizado pelas nações ricas e grandes corporações, replicando dinâmicas coloniais que marginalizam a América Latina e o Caribe (ALC) e exacerbam suas desigualdades históricas.

O relatório destaca uma disparidade alarmante: embora a América Latina concentre 70% do potencial mundial para a geração de energia solar e eólica, a região capta apenas 3% do investimento global destinado a energias limpas. Este desequilíbrio, qualificado pela organização como “apropriação verde“, deixa o Sul Global preso em um ciclo de endividamento enquanto seus recursos são explorados para o benefício do Norte Global.

COP30 em Belém

Dívida em vez de financiamento justo

Um dos pontos críticos apontados é a estrutura do financiamento climático atual. 80% dos fundos que chegam aos países em desenvolvimento o fazem na forma de dívida, não de subsídios. Isso agrava a carga financeira de nações que já acumulam uma dívida externa conjunta de 11,7 trilhões de dólares, um valor que supera em 30 vezes o custo estimado para garantir o acesso universal a energias limpas até 2030.

Gloria Isabel García-Parra, diretora regional da Oxfam para a América Latina e o Caribe, descreveu a situação como um “novo colonialismo climático“. Segundo García-Parra, os países industrializados, responsáveis históricos pelo aquecimento global, controlam agora a transição às custas dos territórios mais vulneráveis, saqueando recursos e deslocando populações, especialmente na Amazônia.

Amazônia. Foto: National Geographic.

A Amazônia: epicentro da violência e da resistência

O relatório destaca que a Amazônia, vital para a estabilidade climática planetária e lar de mais de 400 povos indígenas, encontra-se no centro desta injustiça. A Iniciativa Amazônica Multipaís da Oxfam alerta sobre ameaças simultâneas que incluem o extrativismo intensivo, a apropriação de terras e o enfraquecimento das normativas ambientais.

Essa pressão sobre o território tem um custo humano devastador: ALC registra 75% dos assassinatos de defensores ambientais em todo o mundo, com a Amazônia como o principal foco dessa violência. Viviana Santiago, diretora da Oxfam Brasil, enfatizou que as mulheres indígenas, afrodescendentes e camponesas são quem suportam o maior peso desta crise múltipla, apesar de serem quem lidera as alternativas sustentáveis reais no território.

Exigências para uma COP30 transformadora

De frente para a cúpula climática, Oxfam insta os governos a reorientar radicalmente a transição energética para que seja verdadeiramente justa. Entre suas principais demandas estão:

  • Financiamento direto e sem dívida: Estabelecer fundos transparentes que cheguem às comunidades sem intermediários burocráticos e sob princípios de reparação por perdas e danos.
  • Protagonismo local: Assegurar a participação efetiva de povos indígenas, mulheres e jovens na tomada de decisões.
  • Proteção a defensores: Implementar mecanismos vinculantes para sancionar empresas e Estados que violem direitos humanos.
  • Rejeição a falsas soluções: Revisar criticamente os mercados de carbono e outras iniciativas que não incorporem análise de risco social e respeito aos direitos territoriais.

A organização conclui que a COP30 deve ser um ponto de inflexão para remodelar o panorama energético, passando de um modelo centrado nos benefícios corporativos para um que priorize a vida e a justiça social.

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