Uma nova plataforma pública, apresentada na Embaixada da França, revela que a grande maioria dos 100 objetivos oficiais do país da agenda climática necessita de ações urgentes e uma melhoria na informação para poder ser cumprida no prazo de 2030.
A Fundação Sustentabilidade Sem Fronteiras lançou o Observatório Nacional de Ação Climática, uma ferramenta de acesso público que detalha os compromissos formais assumidos pelo Estado argentino através de 100 metas verificáveis, a maioria com horizonte em 2030.
O balanço inicial que a plataforma revelou é preocupante para o estado da agenda climática nacional. Segundo a avaliação, 11% dos objetivos carecem de informação, 17% são impossíveis de cumprir no prazo fixado, 20% não apresentam avanços, 36% mostram um avanço leve, 10% têm um avanço moderado, 3% têm um cumprimento esperado e apenas 3% já foram cumpridos.
Em resumo, embora se observem progressos iniciais, estes são marcadamente insuficientes para alcançar as metas em tempo e forma.
O termo “avanço leve” é utilizado para descrever um progresso que, se mantido no ritmo atual, não atingirá a meta no prazo estipulado. Ao somar as categorias de avanço leve, sem avanços e impossível de cumprir, conclui-se que 73% dos objetivos estão fora da trajetória projetada para 2030.
A isso se soma que 11% das metas não possuem informação pública disponível, o que obstrui a capacidade de medir e aplicar correções a tempo, elevando assim o risco de incumprimento.
Avançar com esta agenda é uma questão de interesse nacional. Não cumprir com os objetivos encarece a transição energética e expõe a Argentina a perigos concretos em sua competitividade, no acesso a financiamento internacional e na qualidade de vida de seus habitantes. A inação em matéria de adaptação climática agrava as perdas econômicas por eventos extremos, os danos à infraestrutura e às cadeias de suprimento, aumenta os custos dos seguros, impacta negativamente na saúde e na produtividade, e gera tensão sobre a segurança hídrica e alimentar. Pelo contrário, a execução constante das metas em energia, transporte e gestão de riscos reduz custos futuros, fortalece a resiliência e cria novas oportunidades de investimento, emprego e cooperação internacional. O Observatório identifica com precisão onde é necessário acelerar a tomada de decisões, a alocação de orçamentos e a transparência para alinhar o esforço nacional e subnacional com os compromissos já assinados.
Para a construção desta ferramenta, a equipe analisou 23 documentos normativos e estratégicos de caráter nacional. Foi dada prioridade aos objetivos quantitativos, embora também tenham sido integradas metas qualitativas em áreas que carecem de métricas consolidadas, como saúde, perdas e danos, e gênero. Cada um dos 100 objetivos foi classificado em um único estado de avanço, respaldado por evidência documentada e rastreável, obtida através de solicitações formais de informação e do trabalho técnico independente de mais de 20 organizações multissetoriais que compõem o Observatório.
Os estados de avanço definidos são: sem informação, impossível de cumprir, sem avanços, avanço leve, avanço moderado, cumprimento esperado e cumprido. Esta classificação será atualizada de maneira semestral e cada ficha de objetivo registrará a fonte de informação utilizada.
A plataforma, já disponível em https://observatorio.sustentabilidadsf.org.ar/, é composta por três seções complementares (Monitoramento, Visão global e Biblioteca) que buscam fortalecer o acesso à informação e fomentar a participação cidadã. A seção de Monitoramento apresenta os 100 objetivos com seu estado atual, fonte e data da última atualização. A seção “Visão global” oferece indicadores e relatórios internacionais para contextualizar o desempenho da Argentina a nível regional e mundial. Por último, a “Biblioteca” centraliza a normativa, os planos e os documentos oficiais que sustentam o monitoramento, incluindo links diretos para as fontes primárias para facilitar a verificação e a rastreabilidade.
Mariano Villares, cofundador da Sustentabilidade Sem Fronteiras, declarou: “Os dados mostram que uma parte substancial da agenda climática nacional não está em trajetória para 2030. O problema central é a falta de acompanhamento e recursos atribuídos. Quando não há informação pública nem responsáveis visíveis, não se corrige a tempo”. Acrescentou que o Observatório fornece uma base comum para ordenar prioridades, tornar os progressos transparentes e acelerar a tomada de decisões em áreas-chave como energia, transporte e gestão de riscos. A evidência não só identifica onde se devem acelerar as decisões e os orçamentos, mas também expõe os casos em que a ausência de dados impediu medir os avanços, uma situação que deve ser corrigida para ordenar a gestão e recuperar a previsibilidade. Villares lembrou que a Lei 27.520 obriga o Estado a manter um Sistema Nacional de Informação sobre Mudança Climática, cuja implementação pública efetiva continua sendo deficiente. Diante desta lacuna, a sociedade civil impulsionou o Observatório para fornecer evidência verificável e um roteiro para a melhoria contínua.
O Observatório é o fruto de uma coalizão técnica que assegurou a qualidade metodológica e uma perspectiva multissetorial, com a participação de entidades como FUNDAR, FARN, Sustentar, Democracia em Rede, Círculo de Políticas Ambientais, Regenerar, Fundação Vida Silvestre, Laboratório de Transição, Universidade Austral, Beccar Varela, CADER, LIECS, Ambiente Sano, SIBSA, FLACSO, Chequeado, Argentina 1.5, UNSAM Ambiente e Política, Essential Energy Holding e o Clube de Roma Capítulo Argentino, entre outras. Cada organização participou como avaliadora em objetivos específicos segundo sua área de especialização, o que não implica que cada uma tenha monitorado a totalidade das 100 metas.
A apresentação do Observatório se enquadrou nas atividades globais pelo décimo aniversário do Acordo de Paris, contando com o aval do secretariado da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança Climática (CMNUCC). Ao evento assistiram autoridades governamentais, representantes do setor privado, acadêmicos e representantes de organizações da sociedade civil.
Finalmente, foi anunciado que o Observatório realizará atualizações semestrais e incorporará progressivamente novas fontes, tanto oficiais quanto externas, para melhorar a cobertura de temas e a comparabilidade dos dados.




