O governo da Bolívia declarou na quarta-feira emergência nacional diante do avanço dos incêndios florestais, que ameaçam se espalhar por diversas regiões do país.
Segundo o vice-ministro da Defesa Civil, Juan Carlos Calvimontes, foram registrados 720 focos de calor:
- 549 em Santa Cruz
- 140 em Beni, zona amazônica ao norte
- 15 em Potosí, ao sul da nação andina
A medida visa mobilizar recursos nacionais e ativar o apoio internacional para enfrentar os sinistros.
Incêndios recorrentes e números alarmantes
A temporada crítica se repete entre agosto e setembro, com antecedentes devastadores.
Embora os primeiros focos tenham sido relatados em julho, a fase mais intensa geralmente se concentra entre agosto e setembro.
Em 2024, a Bolívia já havia declarado emergência devido a incêndios que afetaram 9,8 milhões de hectares, de acordo com dados oficiais. A Fundação Terra, por sua vez, estimou os danos em 12,6 milhões de hectares, o maior registro da história do país.

Práticas agrícolas e processos judiciais
A queima de restolhos continua sendo uma causa estrutural do problema.
Na Bolívia, é comum que os agricultores queimem pastagens para renovar o solo ou habilitar novas áreas de cultivo.
No entanto, essas práticas frequentemente saem do controle, gerando incêndios de grande magnitude. Calvimontes informou que foram iniciados 60 processos judiciais relacionados a essas ações.
Áreas protegidas sob ameaça: Tunari e Noel Kempff Mercado
Atualmente existem oito incêndios ativos, sete deles em Cochabamba, sendo especialmente preocupante o que afeta a Reserva Florestal Tunari.
Outro foco crítico está no Parque Nacional Noel Kempff Mercado, localizado em Santa Cruz, declarado Patrimônio Natural Mundial pela UNESCO, onde brigadas de bombeiros combatem o fogo desde 6 de agosto.
Chamado institucional e apoio internacional
O Tribunal Agroambiental solicitou formalmente a declaração de emergência nacional, com o objetivo de acessar cooperação internacional e evitar um novo ecocídio. Seu presidente, Richard Cristhian Méndez, ressaltou a necessidade de agir com rapidez.
Paralelamente, a Relatoria Especial sobre Direitos Econômicos, Sociais, Culturais e Ambientais (REDESCA) da CIDH alertou em julho sobre uma tendência crescente de incêndios florestais na Bolívia nas últimas duas décadas, com impactos severos sobre ecossistemas, territórios e comunidades locais.
Recomendações para uma gestão integrada do fogo
A REDESCA instou o Estado boliviano a implementar um Plano Nacional de Manejo Integral do Fogo, que articule:
- Conhecimentos científicos
- Saberes tradicionais
- Abordagens preventivas e ecossistêmicas
- Participação comunitária e intercultural
Esse tipo de estratégia permitiria abordar as causas estruturais, reduzir riscos futuros e fortalecer a resiliência territorial diante de eventos extremos.
Foto da capa: El Día da Bolívia



