O governo do Brasil leiloou pela primeira vez terrenos públicos para reflorestar a Amazônia, concedendo uma concessão à empresa emergente Re.green. O projeto busca financiar a recuperação de áreas degradadas através da venda de créditos de carbono, numa tentativa de transformar décadas de desmatamento em oportunidades de conservação.
A concessão abrange 58.700 hectares na reserva de Bom Futuro, com um contrato de 40 anos. A Re.green ofereceu uma comissão de 0,7% das receitas provenientes da venda de créditos de carbono, que se estima poderem atingir 2 milhões de dólares anuais.
Reflorestamento e comunidades locais
A Re.green faz parte de um grupo de startups que compram terras degradadas para replantar espécies autóctones. Neste caso, a iniciativa inclui a participação da comunidade indígena karitiana, que vive na área e fará parte do projeto.
A ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, celebrou a medida: “Estamos conseguindo converter algo extremamente negativo para o clima, a biodiversidade e as populações locais em algo positivo”.

O desafio amazônico
A floresta amazônica enfrenta uma crise crítica:
- Desmatamento acumulado: entre 2001 e 2020, mais de 54,2 milhões de hectares foram perdidos.
- Principais causas: expansão pecuária, agricultura intensiva (soja), corte ilegal e mineração.
- Impacto dos incêndios: em 2024, 1,9 milhões de hectares foram perdidos devido a incêndios exacerbados por secas e o fenômeno El Niño.
- Variabilidade política: as taxas de desmatamento flutuam conforme as políticas de fiscalização; o governo de Lula da Silva busca reduzir o desmatamento ilegal até 2030.
- Regiões mais afetadas: o estado do Pará historicamente concentra a maior perda de cobertura arbórea.
- Degradação florestal: o dano seletivo supera em área o corte raso, dificultando a vigilância por satélite.
O mercado de carbono como ferramenta
Os pesquisadores afirmam que parar o desmatamento já não é suficiente: é necessário reflorestar vastas extensões para evitar uma transformação irreversível para um bioma degradado.
O incipiente mercado de carbono do Brasil desperta interesse de investidores privados e entidades de crédito. O leilão foi um teste para avaliar se este modelo pode funcionar em grande escala e ajudar o país a cumprir sua meta de reflorestar 30 milhões de acres até 2030.
Embora uma segunda parcela de Bom Futuro não tenha recebido ofertas, as autoridades consideram o resultado positivo e planejam oferecer 300.000 hectares sob este modelo até 2027. No total, foram mapeados 1,3 milhões de hectares de áreas protegidas que precisam de restauração.
A concessão concedida à Re.green marca um precedente na política ambiental do Brasil, integrando financiamento privado, créditos de carbono e participação comunitária. O desafio será escalar este modelo para reverter décadas de desmatamento e garantir que a Amazônia, que abriga 30% da biodiversidade do planeta, continue sendo um pilar da estabilidade climática global.



