Conflito armado na Amazônia colombiana: 48 mortos e deslocamento de indígenas Jiw e Nukak em Guaviare

No coração da Amazônia colombiana, um caminho clandestino se tornou um epicentro de conflito armado. Desde 26 de maio, as áreas rurais de San José del Guaviare sofreram uma intensa confrontação entre grupos dissidentes, resultando na recuperação de 48 corpos, segundo informou a Defensoria do Povo da Colômbia.

Morte e deslocamento na Amazônia: Impacto em povos indígenas

As comunidades indígenas Jiw e Nukak enfrentam um panorama desolador de medo e deslocamento. Esses grupos armados lutam pelo controle de rotas estratégicas para o tráfico de cocaína e armas entre a densa selva. Até agora, dez famílias Jiw fugiram para a área urbana de San José del Guaviare, após cruzar o rio Guaviare desde Mapiripán em Meta.

O conflito envolve facções dissidentes das antigas FARC, conhecidas como “Iván Mordisco” e “Calarcá Córdoba”. Segundo a Defensoria, os confrontos se concentraram em zonas rurais como La Siberia, Caño Cumare e Pipiral.

O ministro da Defesa da Colômbia, Pedro Sánchez, explicou que essas facções estão em disputa pelo poder sobre este território, vital para o narcotráfico e outras atividades ilícitas. O controle dessas áreas permite um acesso estratégico ao norte de Guaviare, ao sul de Meta e à fronteira com Venezuela.

A trilha Tomachipán-Cumare, um caminho ilegal de 47,5 quilômetros, constitui o epicentro desta luta. Este corredor, que atravessa a Reserva Nukak e chega à Reserva Barranco Colorado, é utilizado para o contrabando de cocaína e armas, segundo um relatório da Mongabay Latam e Rutas del Conflicto.

Os dados de satélite indicam o crescimento alarmante de cultivos de coca perto desta via, com um aumento de 58% na superfície cultivada desde 2019. Este fenômeno não só incrementa a violência como também a desmatamento e a pressão sobre a floresta amazônica.

Para as comunidades indígenas, a guerra é uma realidade cotidiana. Os disparos, a falta de comunicação e o temor generalizado são parte de seu dia a dia. “A população está em alerta máxima, ninguém se move”, relatou um camponês de Charras a Rutas del Conflicto e Mongabay Latam.

Em 27 de maio, dez famílias Jiw chegaram ao poliesportivo de San José del Guaviare, deslocadas pela violência. Enquanto isso, as dificuldades de comunicação e o bloqueio do território mantêm outras comunidades em um isolamento perigoso.

A Defensoria do Povo havia advertido sobre o ressurgimento de conflitos em seu Alerta Precoce 001 de 2025, apontando o impacto devastador sobre as comunidades indígenas, camponesas e rurais. A Corte Constitucional da Colômbia já havia identificado em 2009 os Nukak e Jiw em risco de desaparecimento cultural pelo conflito armado.

O dano ambiental é uma consequência inevitável desta guerra. A chamada Trilha Pecuária erosiona a selva, afetando áreas protegidas como o Parque Nacional Natural Sierra de La Macarena. A expansão do desmatamento e a chegada de cultivos ilícitos agravam a fragmentação do ecossistema.

A Defensoria instou os grupos armados a evitar danos à população civil e solicitou medidas urgentes de proteção e atenção humanitária. Além disso, apelou para deter o recrutamento forçado, que tirou a vida de 11 menores de idade no departamento do Cauca.

É crucial estabelecer corredores humanitários, assegurar o apoio às famílias deslocadas e restaurar a comunicação com as comunidades indígenas. Nesta luta pelo controle territorial, os Jiw, os Nukak e a própria Amazônia são os que verdadeiramente sofrem.

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