Enquanto quatro focos ativos de incêndios avançam sobre a Patagônia, o Governo projeta um corte orçamentário de 71,6% no manejo do fogo para 2026.
Atualmente, o foco está em Chubut, onde as chamas consumiram cerca de 12.000 hectares e provocaram a evacuação de 17 famílias.
Embora 22 dos 32 focos ativos desde a última segunda-feira, 5 de janeiro, já tenham sido controlados graças às chuvas isoladas dos últimos dias, os bombeiros ainda trabalham na área e preocupa o dano ambiental irreversível.

Corte orçamentário em meio à emergência
Segundo uma análise da Fundação Ambiente e Recursos Naturais (FARN), o Serviço Nacional de Manejo do Fogo (SNMF) deixou de executar 25% do orçamento em 2025.
Este corte orçamentário no manejo do fogo equivale a quase $20.000 milhões que não foram transferidos para enfrentar os incêndios e auxiliar na sua prevenção.
Para 2026, além disso, a Lei de Orçamento aprovada pelo Congresso prevê uma queda real de 71,6% nos fundos destinados ao combate e prevenção de incêndios em relação a 2025.
Em termos comparativos, o orçamento seria 68,9% menor que o de 2023, quando o SNMF executou 100% dos recursos atribuídos.
Assim, a participação do manejo do fogo dentro do orçamento total do Estado nacional se reduziria de 0,032% em 2023 para 0,014% em 2026.
Em 2024, o SNMF executou apenas 22% do orçamento, apesar de ter sido o período com maior quantidade de focos de incêndio dos últimos oito anos.
Essa subexecução explicou uma queda real de 81% do orçamento entre 2023 e 2024.
Em 2025, a execução melhorou até 76%, mas o leve aumento real do orçamento (8,5%) se concentrou no último trimestre.
Quatro incêndios ativos na região
A Agência Federal de Emergências reportou quatro focos ativos na região patagônica, com o mais grave em Puerto Patriada, El Hoyo (Chubut).
O governador de Chubut Ignacio Torres assegurou que o incêndio foi iniciado de forma intencional, após comprovar-se o uso de acelerantes.
“É a pior tragédia ambiental em 20 anos“, afirmou o secretário de Florestas provincial, Abel Nievas.
Também foram registrados incêndios em Puerto Café (Parque Nacional Los Alerces) e em áreas de Aluminé, Neuquén.
O Serviço Provincial de Manejo do Fogo (SPMF) informou que há 17 famílias evacuadas e duas autoevacuadas na área de El Hoyo.

O impacto do ajuste nas capacidades operativas de Manejo do Fogo
O corte orçamentário impactará diretamente em capacidades chave para a prevenção e o combate contra incêndios, segundo a FARN.
As ferramentas afetadas pela redução de fundos incluem:
- Horas de voo: redução de 5.100 (2023) para 3.100 projetadas
- Relatórios de alerta precoce: queda de 2.310 em 2025 para 1.850 em 2026
- Infraestrutura e equipamentos: sem fundos suficientes para manutenção
- Capacitação de brigadistas: recursos limitados para formação
- Melhorias trabalhistas: condições precárias sem possibilidade de melhoria
“A lógica de atuação é sempre com os incêndios consumados e nunca com caráter preventivo“, denunciou nesta linha Ariel Slipak, coordenador da área de Pesquisa da FARN.
Slipak acrescentou que “não só é necessário mais orçamento, mas atacar as causas dos incêndios vinculadas ao uso do solo”.
O corte orçamentário contra incêndios, mais um exemplo do corte de políticas públicas
Mais de 20 organizações ambientais alertaram que os incêndios na Patagônia são “outro sintoma alarmante da crise climática global“.
As organizações também apontaram “a inação estatal em matéria de mitigação e prevenção” como um fator agravante da situação.
A este cenário se somou a dissolução do Fundo Nacional de Manejo do Fogo em 2025, um mecanismo que garantia financiamento específico e automático.
Esses recursos foram destinados majoritariamente ao aluguel de maquinário e transporte para apagar incêndios já deflagrados, não para preveni-los.
A Argentina continua sem incorporar os crimes ambientais ao Código Penal, o que enfraquece qualquer resposta estrutural frente a incêndios intencionais.
“Aqueles que denunciam intencionalidade costumam ser os mesmos atores que impulsionam cortes orçamentários que reduzem a capacidade do Estado“, concluiu a FARN.



