Mais de 71% das infraestruturas críticas localizadas em zonas inundáveis em Espanha encontram-se em situação de perigosidade muito grave, segundo o relatório “Infraestruturas críticas inundáveis em Espanha”, elaborado pelo Observatório de Sustentabilidade (OS). O documento adverte que a mudança climática está acelerando o risco e ultrapassando os limites previstos pelos modelos históricos.
O relatório identifica 10.197 instalações dentro de áreas com possibilidade de inundação a cada 500 anos, embora os eventos recentes mostrem que essa frequência já foi superada. As chuvas extremas, cada vez mais frequentes e intensas, estão transformando amplas regiões do país em cenários vulneráveis.
Desse total, 71% apresentam risco muito grave, 13% grave e 16% leve. O estudo concentrou-se em 4.340 infraestruturas essenciais, classificadas em seis categorias: populações vulneráveis, segurança do Estado, saúde, segurança ambiental, serviços básicos e indústria, e transporte.
Catalunha concentra 37% das instalações mais ameaçadas, seguida da Galiza, País Basco, Andaluzia, Castela e Leão, Múrcia, Comunidade Valenciana e Aragão. Esses números refletem a magnitude do risco e a necessidade urgente de aplicar estratégias de adaptação diante dos impactos da mudança climática.

Cidades em perigo: o desafio de um país que se inunda
As áreas mais vulneráveis incluem 420 residências de idosos, 1.126 escolas e 232 jardins de infância, localizadas dentro de zonas de alto risco. A elas se somam campings, centros de saúde, quartéis, estações de tratamento de esgoto e subestações elétricas. Essa exposição coloca em risco não apenas serviços essenciais, mas também a vida das populações mais frágeis.
No âmbito da segurança do Estado, o relatório aponta 51 parques de bombeiros, 116 quartéis da Guarda Civil e 114 delegacias em risco de inundação. Na saúde, contabilizam-se 112 hospitais e 3 centros médicos, enquanto na segurança ambiental há 375 estações de tratamento de esgoto, 82 instalações radioativas e 77 plantas químicas.
As infraestruturas de energia e água também estão comprometidas: 415 subestações elétricas, 282 redes de abastecimento e saneamento, e 455 indústrias estão dentro de zonas potencialmente inundáveis. No transporte, há 262 infraestruturas críticas, incluindo estações, estradas e aeroportos.
Fatores que agravam as inundações urbanas
As inundações na Espanha não são apenas consequência do aumento de chuvas extremas. A urbanização descontrolada, o selamento do solo e a falta de drenagem natural amplificam o impacto das precipitações. As cidades substituíram o solo permeável por asfalto e cimento, impedindo que a água se infiltre e provocando o acúmulo de escoamentos.
A isso se soma a perda de ecossistemas naturais como pântanos, marismas e cursos secundários, que historicamente funcionavam como esponjas naturais. O desmatamento e a canalização excessiva de rios reduzem sua capacidade de amortecer cheias, aumentando o risco de transbordamentos em zonas urbanas.
A mudança climática intensifica este cenário. As chuvas torrenciais são agora mais curtas, mas mais violentas, e se combinam com verões mais secos que endurecem os solos, reduzindo sua capacidade de absorção. Em eventos recentes, como a DANA de 2024 em Valência, transbordaram mais de 16.000 hectares adicionais, evidenciando que os modelos de previsão já não bastam.

Soluções urgentes para um planejamento resiliente
O Observatório propõe criar sistemas de alerta precoce, implementar uma etiqueta de risco por inundação em infraestruturas públicas e privadas, e proibir novas construções em zonas vulneráveis. Também recomenda revisar os planos urbanísticos, incorporar soluções baseadas na natureza e adaptar as infraestruturas críticas aos novos cenários climáticos.
Entre as medidas mais eficazes destacam-se a restauração de pântanos, a reflorestação de bacias hidrográficas e a construção de espaços verdes urbanos capazes de absorver água da chuva. Essas soluções naturais reduzem o risco de inundações e melhoram a qualidade do ar e a biodiversidade local.
O relatório conclui que as inundações já não devem ser consideradas fenômenos excepcionais, mas sim uma realidade estrutural. Proteger a vida, os serviços essenciais e o meio ambiente exige uma nova cultura urbana baseada na resiliência, no planejamento sustentável e na justiça climática. Só assim será possível evitar que a água, fonte de vida, se torne uma ameaça recorrente.



