Jornada em defesa da Lei de Geleiras na Argentina: mais de 30 cidades se mobilizam frente à intenção de reformar a norma

Na quinta-feira, 4 de dezembro de 2025, assembleias cidadãs e organizações socioambientais realizarão uma jornada nacional de mobilização para defender a Lei de Geleiras, sancionada em 2010. Esta norma proíbe a atividade mineradora e outras práticas extrativas nas geleiras e em suas zonas adjacentes, conhecidas como ambientes periglaciais, que funcionam como reservas naturais de água.

A convocação surge após o presidente Javier Milei manifestar sua intenção de impulsionar uma reforma da Lei de Geleiras com o objetivo de permitir a atividade mineradora em áreas atualmente protegidas.

A importância da Lei de Geleiras

As organizações destacaram que o objetivo principal da jornada é visibilizar a relevância desta lei para a proteção da água e dos ecossistemas andinos.

Em uma mensagem conjunta, lembraram:

“Em 2010, a luta ambientalista, com mais de 300 organizações e o assessoramento técnico do Instituto Argentino de Nivologia, Glaciologia e Ciências Ambientais, conseguiu a sanção da Lei 26.639, que protege a água dos territórios e, portanto, a vida das comunidades”.

As geleiras desempenham um papel chave na regulação hídrica e climática:

  • Contêm quase tanta água doce quanto todos os lagos do planeta.
  • Refletem a luz solar e ajudam a diminuir o aquecimento global.
  • Seu derretimento parcial no verão sustenta o fluxo de rios essenciais para a agricultura, os pântanos, a flora e a fauna.

Além disso, parte da água das geleiras andinas chega a rios como o Paraná, o Paraguai e o Pilcomayo, tornando-os reservas estratégicas de água doce para vastas regiões do país.

Mobilizações em todo o país

A jornada incluirá marchas, rádios abertas, festivais e atividades informativas em diferentes províncias.

Na Cidade de Buenos Aires, as organizações se concentrarão em frente ao Congresso da Nação para exigir que não avance nenhuma modificação à lei vigente. Também haverá manifestações em Buenos Aires, Catamarca, Chubut, Córdoba, Entre Ríos, Mendoza, Misiones, Neuquén, Río Negro, Salta, San Juan, Santa Fe, Santa Cruz, Tierra del Fuego e Tucumán.

A importância da Lei de Geleiras, a 15 anos de sua sanção.
Organizações socioambientais se mobilizam em todo o país frente à intenção de reformar a norma.

Os pontos centrais do debate

A polêmica gira em torno da tensão entre a proteção do recurso hídrico e a possível permissão de atividades econômicas, especialmente mineradoras.

Proteção hídrica vs. atividade econômica

  • Defensores da lei atual: sustentam que as geleiras e ambientes periglaciais são essenciais para o fornecimento de água potável, a agricultura e o cumprimento de compromissos internacionais.
  • Indústria mineradora: argumenta que as definições atuais são muito amplas e restringem 75% das áreas com potencial minerador.

Definição de “geleira” e “ambiente periglacial”

Propõe-se a necessidade de esclarecer as definições para evitar contradições. Uma proposta é que um decreto regulamentar especifique o objeto de proteção, como as geleiras com função hídrica.

Competência nacional vs. provincial

Algumas vozes sugerem que as províncias definam as geleiras e ambientes periglaciais em seus territórios, o que poderia implicar um retrocesso em relação à lei nacional vigente.

Marco jurídico

A Lei de Geleiras foi confirmada como constitucional pela Suprema Corte em 2019, após rejeitar um pedido de inconstitucionalidade da mineradora Barrick Gold.

A discussão sobre modificar a Lei de Geleiras ressurge no contexto da urgência por atrair investimentos, mas gera uma forte controvérsia. Para as organizações socioambientais, a norma é um pilar fundamental na proteção da água doce e na luta contra a crise climática.

A jornada nacional de mobilização busca enviar uma mensagem clara: as geleiras são reservas vitais de água e sua proteção não pode ser colocada em risco por interesses extrativos.

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