Após percorrer mais de 3.000 quilômetros do Equador ao Brasil, uma frota indígena composta por mais de 70 líderes amazônicos chegou a Belém para participar da Conferência das Partes sobre Mudança Climática (COP30).
Sua travessia, marcada por encontros e reflexões em cada parada, levou uma mensagem contundente: a transição energética não pode reproduzir os mesmos padrões de desapropriação que o modelo fóssil.
“Não podemos falar de transição energética justa enquanto abrem novas zonas de sacrifício em nossos territórios”, afirmou Leo Cerda, líder kichwa e porta-voz da frota.
Transição energética: entre o discurso e a expansão extrativa
Dois anos após o primeiro balanço mundial do Acordo de Paris, que reconheceu a necessidade de transitar longe dos combustíveis fósseis e triplicar a capacidade de energias renováveis até 2030, os compromissos ainda carecem de ações concretas.
Na região amazônica, a situação é contraditória:
- Mais petróleo é perfurado.
- A mineração de minerais de transição é ampliada.
- Megaprojetos renováveis são impostos sem consentimento prévio das comunidades.
“O que estamos vendo hoje não é uma transição, mas uma expansão energética. O discurso muda, mas a estrutura não muda”, apontou Nadino Calapucha, presidente da Tu Amazonía.
Equador e Brasil: novos projetos em territórios indígenas
No Equador, o Governo anunciou a abertura de duas rodadas petrolíferas na Amazônia a partir do final de 2025: Subandina e Suroriente, que afetariam mais de 3,5 milhões de hectares de floresta, segundo a organização Amazon Frontlines.
Enquanto isso, no Brasil foi autorizada a exploração petrolífera na foz do Amazonas, o que se soma a um estudo da Earth Insight que revela que 31 milhões de hectares de territórios indígenas e comunidades locais se sobrepõem a blocos de petróleo e gás.

Compromissos climáticos insuficientes
Embora na COP28 tenha sido reconhecida a necessidade de abandonar os fósseis, as novas Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDC) dos países amazônicos ainda não incluem planos claros para reduzir a dependência do petróleo.
“Tem sido difícil incluir este tema porque várias economias dependem dos combustíveis fósseis”, explicou Andrés Mogro, da Fundação Avina.
Em contraste, as NDC mencionam a ampliação de energias limpas, embora sem transformar o modelo de fundo: quem decide, quem se beneficia e quem assume os custos.
Energias renováveis sem consentimento
O mesmo estudo da Earth Insight adverte que 9,8 milhões de hectares de territórios indígenas amazônicos se sobrepõem a concessões minerárias.
“Hoje vemos projetos de energia renovável se instalando em terras indígenas sem consentimento, repetindo os mesmos padrões de desapropriação do modelo fóssil”, denunciou Calapucha.
Um exemplo é o caso do rio Piatúa no Equador, onde a comunidade de Santa Clara e o coletivo Piatua Resiste conseguiram impedir um projeto hidrelétrico em 2019 após demonstrar a violação de seus direitos e a falta de consulta prévia.
Demandas dos líderes amazônicos na COP30
Os representantes amazônicos buscam que suas demandas sejam incluídas no Programa de Trabalho de Transição Justa:
- Prazos claros para a eliminação de combustíveis fósseis de maneira justa e ordenada.
- Planejamento trabalhista para trabalhadores do setor fóssil que devem se integrar a novas indústrias.
- Financiamento direto para comunidades indígenas.
- Reconhecimento de zonas de exclusão (No Go Zones) em territórios onde não se permite atividade extrativa, especialmente em áreas habitadas por Povos Indígenas em Isolamento e Contato Inicial (PIACI).
Entre a coragem e o discurso vazio
Para Calapucha, o desafio da COP30 é claro:
“Está em jogo se os Governos terão a coragem de pôr fim à era fóssil e assumir uma transição verdadeiramente justa, ou se a transição continuará sendo um discurso vazio e não uma solução real”.
A chegada da frota dos líderes amazônicos a Belém simboliza a resistência e a voz dos povos amazônicos, que reivindicam que a transição energética não seja apenas uma mudança de fonte, mas uma transformação estrutural que respeite direitos, territórios e culturas.



