Mendoza aposta em salvar um legado natural e cultural com a criação de um viveiro de oliveiras resgatadas

Mendoza não é apenas terra de vinhos. Os olivais também fazem parte de sua identidade, embora nas últimas décadas sua superfície tenha diminuído de forma alarmante. O que um dia foram 20.000 hectares cultivados hoje mal ultrapassa os 5.000, e muitas árvores acabam sendo transformadas em lenha pela falta de rentabilidade do setor.

Diante dessa ameaça, surgiu uma iniciativa singular: A Creche das Oliveiras, um projeto que busca resgatar árvores destinadas ao corte para lhes dar uma nova vida. Em poucos anos, a fundação conseguiu salvar mais de 4.000 exemplares, replantando-os em fazendas, jardins e até em restaurantes.

A proposta não se limita ao aspecto produtivo. Também representa uma forma de preservar um patrimônio cultural. Muitas das oliveiras mendocinas são de variedades trazidas por imigrantes há mais de um século, quando não havia viveiros locais. Conservá-las implica salvaguardar uma genética única que liga a província às suas raízes mediterrâneas.

Além disso, a fundação promove um sistema de adoção: qualquer pessoa pode doar ou solicitar o resgate de uma árvore e dar-lhe um novo espaço para crescer. Assim, as oliveiras deixam de ser descartadas para se tornarem símbolos vivos de compromisso ambiental.

Creche de oliveiras em Mendoza. Foto: Instagram/ @laguarderiaolivos.
Creche de oliveiras em Mendoza. Foto: Instagram/ @laguarderiaolivos.

O papel ecológico das oliveiras

Além de seu valor econômico e cultural, as oliveiras desempenham funções ecológicas fundamentais. Sua capacidade de adaptação a climas áridos as torna aliadas-chave contra o avanço da desertificação. Ao crescer em solos pobres e com pouca água, contribuem para fixar a terra, prevenir a erosão e manter a fertilidade dos terrenos.

Outra de suas contribuições é a captura de dióxido de carbono. Estima-se que uma oliveira adulta pode absorver até 25 quilos de CO₂ por ano, ajudando a mitigar os efeitos das mudanças climáticas. Em Mendoza, onde o estresse hídrico e as temperaturas extremas são cada vez mais frequentes, esse serviço ambiental adquire um valor estratégico.

Os olivais também favorecem a biodiversidade. Ao gerar sombra, flores e micro-habitats, são refúgio de insetos polinizadores, aves e pequenos mamíferos. Essa interação enriquece o equilíbrio dos ecossistemas agrícolas e contribui para manter cadeias alimentares que de outra forma seriam afetadas pela perda de habitat.

Em conjunto, esses benefícios mostram que conservar e replantar oliveiras não é apenas uma questão produtiva, mas uma estratégia de adaptação ambiental que fortalece a resiliência dos territórios.

Entre o resgate e a produção

A Creche das Oliveiras não só cuida de árvores centenárias, mas também impulsiona projetos produtivos. Parte dos exemplares resgatados é integrada a novos olivais com sistemas de irrigação mais eficientes e colheitas mecanizadas, o que melhora a competitividade diante de um mercado global exigente.

A fundação até mesmo produziu azeites a partir dessas plantas, obtendo reconhecimento internacional. Cada garrafa comercializada se converte em uma contribuição direta para a continuidade dos resgates, uma vez que a arrecadação é destinada quase em sua totalidade para custear traslados, podas e cuidados.

O projeto também envolve a comunidade. As árvores salvas recebem o nome de seus doadores e podem ser visitadas pelas famílias que decidiram preservá-las. Assim, a experiência transcende o campo agrícola para se transformar em um ato simbólico de consciência ambiental.

Creche de oliveiras em Mendoza. Foto: Instagram/ @laguarderiaolivos.
Creche de oliveiras em Mendoza. Foto: Instagram/ @laguarderiaolivos.

Um futuro ligado à sustentabilidade

Mendoza enfrenta o dilema de como manter seus olivais em um contexto de baixos preços e mudanças climáticas cada vez mais intensas. O corte indiscriminado pode aliviar problemas de curto prazo, mas significa perder patrimônio genético, cultural e ambiental.

A Creche das Oliveiras oferece um caminho alternativo: resgatar o que ainda resta, revalorizá-lo e demonstrar que o azeite mendocino pode ser um produto de excelência com identidade própria. A aposta, no entanto, não depende apenas de uma fundação. Requer políticas públicas, apoio empresarial e um consumo consciente que valorize o esforço de produzir de forma sustentável.

Num cenário global onde cada árvore conta, as oliveiras de Mendoza se erguem como guardiãs de história, cultura e biodiversidade. Resgatá-las não é apenas preservar uma tradição agrícola, mas apostar num futuro onde a produção e a ecologia convivam em equilíbrio.

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