Na Argentina, quase 30% das notícias sobre a transição energética são desinformação.

Um estudo da Climate Tracker revelou que 27,3% das notícias publicadas na Argentina sobre a transição energética contêm, pelo menos, uma frase desinformativa. Os pesquisadores responsáveis pelo projeto afirmam que esse tipo de informação distorce a viabilidade do processo.

Esses dados surgem do estudo “Gaslighting: desinformação sobre a transição energética na América Latina e Caribe”, que durou um ano e abrangeu Argentina, Brasil, Colômbia, Costa Rica, Guiana, Suriname e México. Regionalmente, foram analisados 1487 artigos publicados em 32 meios de comunicação entre 23 de junho de 2023 e 24 de maio de 2024.

Posicionar o gás fóssil ou natural como ponte para a transição atrasa o avanço para uma matriz energética limpa. Foto: Shutterstock

Discursos sobre a transição energética

Foi identificado que a maioria dos conteúdos desinformativos não nega as mudanças climáticas, mas tenta adiar ou relativizar o debate urgente sobre a transição energética com narrativas retardatárias.

O discurso mais utilizado para esse fim é a apresentação do gás fóssil (ou também chamado natural) como combustível de transição. Os pesquisadores afirmam que essa narrativa desinforma, pois aumentar a exploração do gás é incompatível com o objetivo de conter o aumento da temperatura global.

Embora regionalmente a desinformação atinja 20% das notícias estudadas, foi observado que na Argentina a incidência é maior. Os principais discursos desinformativos no país buscam adiar a mudança para uma matriz limpa, menos dependente de combustíveis fósseis.

A desinformação na Argentina

Na Argentina, foram analisadas 165 notas de quatro veículos: La Nación, Infobae, elDiarioAr e Ámbito. Em 45 foram identificados conteúdos desinformativos. Embora o discurso do gás como ponte para a transição tenha sido o mais presente (aparecendo em 71% desses conteúdos), foram encontradas algumas singularidades.

“Uma particularidade na Argentina é a presença de discursos que dizem promover renováveis – como o hidrogênio – mas que, na realidade, continuam sustentando a matriz gasífera, ao incluir no pacote não apenas o hidrogênio verde, mas também o azul”, afirmou Maximiliano Manzoni, coordenador geral da pesquisa, ao NoticiasAmbientales.com.

De cada 10 frases com desinformação na Argentina, quatro foram proferidas por representantes da indústria fóssil. Outras duas por funcionários do âmbito governamental. Para os pesquisadores, esse alinhamento evidencia a ligação entre interesses econômicos e decisões políticas, fortalecendo o “consenso do gás” na política energética nacional.

A discussão sobre a transição energética na Argentina tem uma visão econômica. A dependência de Vaca Muerta surge como uma das principais narrativas. Foto: Adrián Pérez

Uma visão econômica sobre uma socioambiental

O período de análise do estudo compreendeu o último semestre do governo de Alberto Fernández e o primeiro semestre da administração de Javier Milei. Apesar das diferenças ideológicas, não foram detectadas grandes diferenças no tratamento informativo da transição energética entre ambas as etapas.

Para Manzoni, há duas interpretações a respeito. Uma delas sugere que, independentemente do viés político, “a discussão sobre a transição energética na Argentina continua estagnada no vórtice da crise econômica endêmica e na falta de imaginação para pensar além de Vaca Muerta”.

“A interpretação mais positiva é que os marcados discursos negacionistas do presidente atual aparentemente não permearam a cobertura e os debates sobre a transição”, destacou o coordenador desta pesquisa.

O estudo observou que a transição energética ainda é um tema emergente na mídia. “Ainda está confinada em conversas econômicas de curto prazo, principalmente em torno de Vaca Muerta”, afirmou Manzoni.

O pesquisador mencionou que a promoção de coberturas especializadas que abordem a transição não apenas a partir das mudanças climáticas, mas também da política local, da saúde e da ciência, poderia ajudar a combater a desinformação.

Dado

Nesta pesquisa, foi identificado que os países com maiores níveis de desinformação foram Equador (35%) e Guiana (30%).

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