O projeto para modificar a Lei de Geleiras pode colocar em risco a água que essas enormes massas de gelo produzem

Em 2010, o Congresso sancionou a Lei 26.639 de Orçamentos Mínimos para a preservação de geleiras e ambiente periglacial. A norma reconheceu esses sistemas como reservas estratégicas de água doce.

A lei estabeleceu um piso uniforme de proteção em todo o país. Além disso, deixou para as províncias a possibilidade de ampliar padrões, mas nunca reduzi-los. Define como geleira toda massa de gelo perene estável ou em movimento. Também protege o ambiente periglacial, chave para regular recursos hídricos.

O inventário foi encomendado ao Instituto Argentino de Nivologia, Glaciologia e Ciências Ambientais. Sua tarefa permitiu identificar localização, superfície e características de cada corpo de gelo.

Atualmente, a norma proíbe atividades mineradoras e hidrocarboníferas nessas áreas. Desta forma, resguarda funções hídricas essenciais para consumo e biodiversidade.

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Modificar a Lei de Geleiras poderia colocá-las em perigo.

O uso de água das geleiras na Argentina

As geleiras argentinas se estendem ao longo de 4.000 quilômetros na Cordilheira dos Andes. Estão presentes em doze províncias e alimentam 39 bacias hidrográficas.

O inventário levantou 560.000 km² e identificou 16.968 corpos de gelo. Em conjunto, cobrem uma superfície de 8.484 km² sob proteção legal. Do degelo dependem 1.800 localidades e mais de sete milhões de pessoas. A água abastece consumo humano, agricultura e recarga de bacias.

Em 2010, a Organização das Nações Unidas reconheceu o acesso à água potável como direito humano essencial. Além disso, a Corte Suprema de Justiça da Nação sublinhou seu vínculo direto com a vida e a saúde.

A jurisprudência também destacou a interdependência entre gelo, solos, florestas e bacias. Por isso, qualquer alteração impacta em todo o sistema ecológico.

O projeto de reforma e o debate ambiental

O Governo nacional impulsiona uma modificação à lei vigente. A iniciativa propõe conceder maior discricionariedade às províncias frente a projetos extrativos.

Segundo setores críticos, a proposta enfraqueceria a proteção atual. Além disso, permitiria redefinir quais áreas cumprem funções hídricas relevantes.

Especialistas alertam que excluir ambientes periglaciais desconhece seu papel regulador. O gelo subterrâneo atua como “cimento” natural que estabiliza solos e armazena água.

Qualquer intervenção antrópica nessas zonas repercute nas bacias. Em consequência, comprometeria o abastecimento hídrico e a integridade ecossistêmica.

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Modificar a Lei de Geleiras poderia colocá-las em perigo.

Um debate que transcende o ambiental

O projeto se insere em um contexto global de expansão extrativa. Minerais estratégicos como lítio, cobre e cobalto concentram interesse internacional.

A Argentina promove investimentos mediante regimes de incentivo a longo prazo. Ao mesmo tempo, organizações socioambientais reivindicam fortalecer controles. A discussão não se limita à mineração. Também envolve direitos constitucionais e tratados internacionais.

O artigo 41 da Constituição impõe proteger o ambiente para gerações presentes e futuras. Por isso, o Congresso enfrenta um debate que combina desenvolvimento, água e sustentabilidade.

O futuro das geleiras argentinas definirá não só um modelo produtivo. Também determinará a segurança hídrica de milhões de pessoas.

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