Sentença histórica: três responsáveis pelo incêndio nos humedais do Delta do Entre Rios condenados por fogo criminoso.

O Tribunal Oral Federal de Paraná, composto pela juíza Noemí Berros, proferiu uma sentença sem precedentes em 28 de julho ao impor penas de prisão efetiva a três homens acusados de provocar, de forma dolosa, um incêndio que devastou 6.000 hectares de áreas úmidas. O incêndio ocorreu na região das Ilhas de las Lechiguanas, dentro do Delta do Paraná, sob a jurisdição do departamento de Gualeguay (Entre Ríos).

Os condenados, Oscar Alberto Magallanes, Jesús Alberto Magallanes e Miguel Ramón Morales, naturais de San Pedro (Buenos Aires), deverão cumprir penas de 3 anos e 6 meses, e 3 anos e 2 meses, respectivamente.

O processo está pendente de confirmação, pois os fundamentos serão publicados em 5 de agosto e poderá ser objeto de recurso de cassação nos dez dias seguintes.

O incêndio atingiu Rosário e Buenos Aires: impacto regional e judicial

O incêndio ocorreu em 23 de agosto de 2023 em uma área onde os condenados mantinham colmeias instaladas. Devido ao vento, o fogo se espalhou rapidamente, devastando a flora e fauna da área úmida e chegando em forma de cinzas até Rosário e Buenos Aires.

A figura penal aplicada foi a de dano doloso, devido à magnitude do dano ambiental e ao potencial risco para a saúde.

incendio humedales
Precedente judicial contra os incêndios em áreas úmidas

Durante o julgamento, o Ministério Público Federal, representado por José Ignacio Candioti, fundamentou o caso com documentação técnica, perícias e relatórios de especialistas, demonstrando a intencionalidade e as consequências do incêndio. O promotor afirmou que “as características do dano exigiam um julgamento oral e público”.

Um precedente judicial contra os incêndios em áreas úmidas

Essa decisão representa um marco legal em Entre Ríos, sendo a primeira vez que um crime dessa natureza é penalizado com prisão efetiva no sistema federal. Até então, o único precedente semelhante era um caso de contaminação ambiental em Diamante, onde em dezembro de 2020 foi imposta uma pena condicional de 3 anos, além de multa e trabalho comunitário, posteriormente confirmada pela Câmara Federal de Cassação Penal.

Neste novo caso, o tribunal já havia rejeitado o pedido de suspensão condicional do processo solicitado pela defesa, argumentando que os fatos envolviam uma grave questão ambiental e requeriam uma punição exemplar.

Depoimentos, relatórios e expectativa pública

Durante o julgamento, foram apresentados 15 depoimentos-chave, incluindo o do advogado ambientalista Matías De Bueno (Observatório Ambiental UNR), e do médico Damián Verzeñassi, do Instituto de Saúde Socioambiental da Faculdade de Ciências Médicas da UNR. Ambos expuseram os danos ao soil, flora, fauna e saúde humana, respaldando com evidências científicas a gravidade do desastre.

O promotor Candioti destacou que essas condenações podem estabelecer um precedente para desencorajar futuros incêndios intencionais em áreas de alto valor ecológico. A pena visa evitar a impunidade em casos de crimes ambientais, que muitas vezes não chegam a julgamento.

Prisão efetiva e próximos passos processuais

Agora aguarda-se a publicação formal dos fundamentos judiciais, o que abrirá caminho para a execução da pena, caso não haja apelação. Como não são preenchidos os requisitos para prisão domiciliar, os três homens deverão cumprir a sentença em estabelecimentos prisionais comuns.

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