Triângulo do lítio: povos indígenas denunciam violação de direitos e falta de consulta na ONU

Representantes de comunidades indígenas de Bolívia, Chile e Argentina participaram do 25° Fórum Permanente das Nações Unidas sobre Questões Indígenas, realizado em Nova York. Lá denunciaram a violação de seus direitos coletivos frente à exploração do lítio no denominado “Triângulo do lítio”.

A delegação apresentou uma proposta articulada em três eixos e busca influenciar recomendações internacionais para os Estados envolvidos.

Três eixos da proposta

  1. Crítica ao modelo extrativista
  • Williams Colque, representante de comunidades próximas ao salar de Coipasa (Bolívia), destacou que o modelo vigente degrada os direitos coletivos e limita a autodeterminação dos povos.
  • Denunciou que a exploração afeta ecossistemas frágeis e coloca em risco a vida comunitária.
  1. Falta de consulta prévia, livre e informada
  • As comunidades reclamam que não foram consultadas sobre acordos firmados com empresas chinesas e consórcios russos.
  • Colque enfatizou a necessidade de participação para conhecer o impacto ambiental e o uso de água na exploração do lítio.
  • No Chile, Faviola Gonzáles Soto, da comunidade atacamenha de Toconao, denunciou que após mais de 30 anos de exploração no Salar de Atacama, as lagoas diminuíram e a água subterrânea foi afetada, impactando inclusive na nidificação do flamingo andino.
  1. Articulação regional e pressão internacional
  • A delegação busca fortalecer redes entre comunidades dos três países e gerar incidência em organismos internacionais.
  • Colque explicou que realizam gestões com relatores da ONU para que as demandas sejam incluídas em relatórios oficiais.
Triângulo do lítio
As comunidades indígenas do Triângulo do lítio exigem direitos diante da exploração e pedem consulta prévia sobre acordos.

Impactos ambientais e sociais

A exploração de lítio no Salar de Atacama é realizada mediante evaporação de salmouras, um processo que consome enormes volumes de água em um deserto hiperárido. Isso afeta aquíferos, flora e fauna, e gera conflitos territoriais, pressão sobre serviços básicos e falta de benefícios estruturais para as comunidades.

Nas palavras de Gonzáles: “As consultas indígenas não são vinculantes… a maioria das observações das comunidades não são levadas em conta”.

Expectativas nas Nações Unidas

As organizações indígenas reconhecem que os mecanismos da ONU costumam ter efeitos a longo prazo, mas consideram fundamental posicionar sua demanda em cenários internacionais. Esperam que as conclusões do fórum incluam recomendações que obriguem os Estados a garantir:

  • Direitos coletivos.
  • Transparência em acordos extrativos.
  • Proteção ambiental em futuras explorações de lítio.

O caso do “Triângulo do lítio” reflete a tensão entre o desenvolvimento de um recurso estratégico e a defesa dos direitos indígenas. As comunidades insistem que o lítio não pode ser explorado sem sua participação nem à custa de seus territórios, e alertam que os impactos observados em áreas com maior trajetória extrativa antecipam riscos para outras regiões do continente.

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