Um extenso canal de 250 quilômetros percorre parte de Santiago del Estero com o objetivo de levar água a zonas áridas e potencializar a pecuária. Mas esta obra pública, financiada pelo Estado Nacional e executada pelo governo provincial, se tornou uma ameaça ambiental para a vida selvagem local.
O Novo Canal da Pátria, revestido em concreto, foi concebido como uma solução para melhorar o acesso à água em uma das regiões mais secas do país. No entanto, seu design rígido e suas paredes inclinadas funcionam como armadilhas mortais para a fauna local.
Três reconhecidas organizações ambientais — Aves Argentinas, FARN e Fundação Vida Silvestre — apresentaram uma ação perante a Corte Suprema, denunciando um “grave dano ambiental coletivo”. Afirmam que a obra viola princípios básicos de proteção da biodiversidade e coloca em risco também a saúde humana.
Em apenas meio ano, foi relatada a morte de mais de 250 animais de mais de 40 espécies nativas, algumas em perigo de extinção. O impacto não é apenas ecológico, mas também sanitário: a decomposição desses corpos comprometeria a qualidade da água para as comunidades próximas.
Um desastre evitável em uma ecorregião frágil como a de Santiago del Estero
O canal atravessa o Chaco Seco, uma ecorregião crítica com altos níveis de desmatamento. Ali, os animais selvagens que caem no leito não conseguem sair pelas margens escorregadias, transformando a obra em uma armadilha mortal.
Entre os exemplares encontrados sem vida estão tamanduás, tartarugas, veados-campeiros, pecaris e tatus, todos componentes fundamentais do equilíbrio ecológico. Sua perda não apenas empobrece a biodiversidade, mas desestrutura o funcionamento natural do ecossistema.
As organizações exigem um plano urgente de mitigação e recomposição ambiental. Solicitam monitoramento constante da fauna e qualidade da água, obras de escape para animais e a adaptação dos trechos críticos. Também demandam uma avaliação ambiental rigorosa e contínua.
A ação se baseia no artigo 41 da Constituição Nacional, que obriga o Estado a recompor o ambiente danificado. Embora reconheçam a necessidade de infraestrutura hídrica em áreas vulneráveis, insistem que deve ser feita sem destruir o entorno natural.
A Suprema Corte será agora responsável por determinar se esta obra, que pretendia levar vida, acabará sendo sinônimo de morte para centenas de espécies em uma das regiões mais castigadas do país.

Uma construção com consequências ambientais
A construção do canal da Pátria em Santiago del Estero foi concebida como uma obra estratégica para garantir o abastecimento de água e promover o desenvolvimento pecuário em uma região marcada pela seca. Com 250 quilômetros de extensão e revestido em concreto, o canal atravessa uma das regiões ecologicamente mais sensíveis do país: o Chaco Seco.
Além de seu impacto sobre a fauna, a infraestrutura modificou profundamente a paisagem natural. O traçado do canal interrompe cursos d’água naturais, altera fluxos subterrâneos e pode provocar mudanças nos ciclos de umidade do solo. Isso representa uma ameaça para os ecossistemas circundantes, que dependem do equilíbrio hídrico para sustentar sua biodiversidade.
A falta de estudos ambientais abrangentes e a ausência de monitoramento posterior à sua construção geraram preocupações sobre o risco de salinização, erosão e perda de cobertura vegetal. Além disso, a canalização intensiva de água sem um planejamento sustentável poderia comprometer a longo prazo a disponibilidade do recurso, afetando não apenas a natureza, mas também as comunidades rurais que dependem dela.



