No Atlântico português, a 20 quilômetros da costa de Viana do Castelo, funciona o WindFloat Atlantic, o primeiro parque eólico marinho flutuante semissubmersível do mundo. Com 25 megawatts instalados, abastece 25.000 lares. O surpreendente não está apenas na superfície: após oito anos de monitoramento, pesquisadores documentaram a presença de 272 espécies em torno das plataformas.
Polvos, raias, tubarões, golfinhos comuns, orcas e até um tubarão-frade fazem parte de um ecossistema que se consolidou ao redor das estruturas submersas, convertidas em recifes artificiais. Mexilhões, percebes e anêmonas colonizaram as paredes metálicas, atraindo predadores e gerando um ambiente rico em biodiversidade.
Efeito reserva e exclusão pesqueira
A área delimitada pelos aerogeradores exclui a pesca comercial, o que reduziu a pressão sobre a fauna. Os dados mostram:
- Maior abundância de polvos e biomassa de peixes.
- Incremento de elasmobrânquios (raias e tubarões).
- Aumento da atividade de golfinhos comuns durante a fase operacional.
Em aves, foram registradas 33 espécies distintas, em comparação com as 17 contabilizadas antes da construção. Também foram detectadas três espécies de morcegos e vários mamíferos marinhos, consolidando um ecossistema ativo.
Debate com o setor pesqueiro
A Ocean Winds assegura que os desembarques pesqueiros em Viana do Castelo não diminuíram. No entanto, a associação VianaPesca denunciou o desaparecimento de espécies como a pescada e o pargo em um raio próximo ao parque. Os coletivos pesqueiros questionam o relatório e exigem estudos independentes sobre os efeitos a longo prazo.
Os pesquisadores da Universidade de Lisboa reconhecem diferenças entre a área do parque e as zonas exteriores, especialmente em invertebrados bentônicos e comunidades de peixes, embora confirmem que o fitoplâncton e o zooplâncton não mostram impactos negativos.

Benefícios dos recifes artificiais
Os recifes artificiais são estruturas submersas que imitam o papel ecológico dos recifes naturais. Seus benefícios incluem:
- Criação de habitat: facilitam a colonização de microorganismos e invertebrados.
- Aumento de biodiversidade: atraem peixes e crustáceos, transformando fundos arenosos em oásis biológicos.
- Zonas de criação: atuam como berçários seguros para filhotes de múltiplas espécies.
- Resiliência climática: potencializam o armazenamento de carbono sob a água.
- Alívio de pressão sobre recifes naturais: desviam turismo e pesca para áreas artificiais.
- Proteção contra pesca ilegal: funcionam como barreiras físicas contra redes de arrasto.
Materiais utilizados
São construídos com blocos de concreto, módulos de cerâmica ou estruturas impressas em 3D. Também são reutilizados navios afundados, plataformas petrolíferas fora de serviço ou pneus tratados.
A Sociedade de Conservação de Biologia Marinha adverte que devem ser planejados cuidadosamente para evitar contaminação e assegurar efetividade a longo prazo.
Impacto ambiental positivo
Desde sua conexão em dezembro de 2019, o WindFloat Atlantic produziu 345 gigawatts hora, evitando mais de 33.000 toneladas de CO₂ por ano. Para a Ocean Winds, os resultados são evidências de que a eólica marinha flutuante pode gerar benefícios ecológicos locais além de energia limpa.
O caso do WindFloat Atlantic mostra como uma infraestrutura energética pode se transformar em um refúgio marinho inesperado. Embora persistam tensões com o setor pesqueiro, os dados sugerem que os parques eólicos flutuantes podem combinar produção de energia renovável com regeneração de ecossistemas.
O desafio será garantir estudos independentes e uma gestão que equilibre conservação, pesca e transição energética.



