O desperdício alimentar não é apenas uma questão de preços. É, acima de tudo, uma crise de valores e de design do sistema alimentar global. José María Gil, diretor do Centro de Pesquisa em Economia e Desenvolvimento Agroalimentar (CREDA-UPC-IRTA), coloca desta forma: “Não valorizamos os alimentos nem o esforço daqueles que trabalham em condições difíceis para que possamos ter comida disponível”, resume.
Nas sociedades atuais, onde a comida representa uma fração mínima do orçamento familiar, o vínculo cultural e emocional com os alimentos foi enfraquecido. Esta desconexão contribui para números alarmantes: de acordo com o Relatório sobre o Índice de Desperdício de Alimentos 2024, cada pessoa desperdiça em média 79 quilos de comida por ano, uma tendência que se replica tanto em países de renda alta como em muitos da América Latina.
Desperdício em todas as etapas: do campo ao lixo
O problema não se limita ao âmbito doméstico. O desperdício ocorre também em:
- Pontos de venda e supermercados
- Restaurantes, hospitais, escolas e refeitórios institucionais
- Processos de produção e distribuição sem planejamento adequado
Em 2022, por exemplo, a Espanha desperdiçou mais de 1.170 milhões de quilos de alimentos, sendo as frutas as mais afetadas.
Dados levantados pela ONU revelam que a média anual de desperdício em cidades como Bogotá (70 kg/pessoa), Lima (91 kg), Ensenada (129 kg) ou Chacao (93 kg) iguala ou mesmo supera a de países desenvolvidos. Embora esses números sejam aproximados, o volume global é indiscutível: mais de 1.000 milhões de toneladas de comida acabam no lixo a cada ano.
Impactos sociais: insegurança alimentar e desigualdade
“Quanto mais se desperdiça, menos alimentos estão disponíveis para aqueles que mais precisam”, explicam Eva González e Ana Lapeña, responsáveis pela área de Cultura de Sustentabilidade da ECODES.
Os efeitos sociais incluem:
- Aumento dos preços dos alimentos
- Dificuldade de acesso para populações vulneráveis
- Perda de renda para produtores em estágios iniciais da cadeia
- Maior desigualdade e pressão sobre a segurança alimentar global
De acordo com o relatório da FAO, FIDA, OMS, PMA e UNICEF, em 2022 cerca de 2.400 milhões de pessoas não tiveram acesso constante a alimentos, e projeta-se que 670 milhões continuarão sofrendo com a fome em 2030, números semelhantes aos de 2015.
O iceberg ambiental: água, terra, energia e emissões perdidas
O desperdício alimentar é também uma das causas mais subestimadas do aquecimento global e da perda de biodiversidade:
- Representa 20 % do consumo mundial de água doce
- Ocuparia o equivalente a 28 vezes a superfície da Espanha em terras cultiváveis
- Gera de 8 % a 10 % das emissões globais de gases de efeito estufa, mais do que toda a aviação comercial
- Impulsiona desmatamento, erosão do solo e degradação ecossistêmica
“Jogar comida fora implica descartar também a água, a energia, os agroquímicos e o trabalho investido para produzi-la”, apontam da ECODES.
Uma mudança necessária: consciência, planejamento e políticas sistêmicas
Reduzir o desperdício não é apenas uma responsabilidade individual. Requer:
- Políticas públicas que integrem economia circular e justiça social
- Campanhas educativas sobre conservação e consumo consciente
- Infraestrutura de armazenamento e logística adaptada ao contexto local
- Modelos alimentares que priorizem o valor real da comida e não apenas seu preço
A dimensão do desperdício é global, mas seu impacto se reflete em cada mesa vazia, em cada floresta devastada e em cada grau de aquecimento global. Reconhecer sua magnitude é o primeiro passo para agir.
Foto de capa: Getty Images



