Segundo o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, a indústria da construção é um dos principais motores da mudança climática.
Na Argentina, o panorama é semelhante: o setor concentra 40% do consumo de energia, grande parte destinado à aquecimento e refrigeração. Materiais tradicionais como cimento, aço, concreto e alumínio geram 15% das emissões globais, especialmente durante a sua produção.
Construção a seco e bioconstrução: alternativas sustentáveis na indústria
No país, o uso de métodos convencionais ainda predomina, mas observa-se um crescimento da construção a seco, que reduz o consumo de combustível em 60% e as emissões de CO₂ em 22,5%, de acordo com a Câmara Argentina da Construção.
Por sua vez, experiências como a de La Serranita (Córdoba) demonstram que a autoconstrução com materiais naturais —como estruturas de madeira, palha e terra— pode oferecer conforto térmico e baixo impacto ambiental.

Bioconstrução: tradição, sustentabilidade e falta de regulamentação
A construção com terra se adapta a diversos climas, mas ainda carece de um enquadramento legal nacional.
Especialistas como Leonardo Nucci e María Rosa Mandrini destacam que a bioconstrução é uma técnica culturalmente enraizada e ambientalmente eficiente, mas que não possui regulamentação nacional.
Desde 2021, a Red Protierra Argentina promove ordenanças locais para padronizar práticas. Até agora, 15 províncias aprovaram normas municipais e três sancionaram leis provinciais, demonstrando sua versatilidade em zonas sísmicas e climaticamente diversas.
Habitação social e eficiência energética: uma dívida estrutural
Mais de quatro milhões de famílias enfrentam déficit habitacional e altos custos energéticos.
A Argentina enfrenta um déficit habitacional crítico, com 1,6 milhões de famílias sem habitação e mais de dois milhões em condições precárias.
Segundo Salvador Gil, especialista em sustentabilidade, muitas famílias constroem sem projeto técnico ou isolamento térmico, o que aumenta o consumo energético e obriga a utilizar fontes caras e poluentes como lenha ou gás em garrafa.
“A eficiência energética não só reduz as emissões, mas também combate a pobreza”, afirma Gil em entrevista ao Pagina 12.
Normas e etiquetagem energética: avanços e desafios
O Programa Nacional de Etiquetagem de Habitações busca medir o consumo energético anual.
Desde 2023, o PRONEV, impulsionado pela Secretaria de Energia, permite avaliar a exigência energética das habitações. Embora a sua aplicação seja voluntária em grande parte do país, províncias como Santa Fe já o exigem no momento da escritura.
Até agora, foram emitidas 1.357 etiquetas e analisadas 3.738 habitações, considerando fatores como clima, materiais, aberturas e ventilação.
Rumo a uma construção sustentável: o papel do Estado e da sociedade
Normas IRAM, certificação LEED e participação cidadã como pilares da transformação.
A Argentina possui normas IRAM 11600 para isolamento térmico e eficiência energética, mas o seu caráter voluntário limita o seu impacto. Especialistas como Carolina Ganem e Carolina Sfeir concordam que a implementação obrigatória por região climática e o envolvimento social são fundamentais para avançar.
No âmbito internacional, Brasil e México lideram o ranking LEED, enquanto a Argentina ocupa o quinto lugar na América Latina, com um crescimento sustentado e potencial para consolidar uma indústria da construção mais amigável ao ambiente.



