O reino dos cogumelos, uma rede interconectada e pouco explorada, sustenta os ecossistemas globais e oferece soluções para crises ambientais e médicas.
Cientistas como o biólogo Merlin Sheldrake e equipes do Jardim Botânico de Kew (Londres) investigam esses organismos, que sobreviveram a cinco extinções em massa em um bilhão de anos. Sua capacidade de adaptação pode ser crucial diante das mudanças climáticas e da contaminação.
O reino subterrâneo
Os cogumelos formam redes microscópicas chamadas micélios, que se estendem por milhares de quilômetros abaixo do solo. “São os químicos mais extraordinários da natureza“, afirma Sheldrake.
Eles liberam enzimas digestivas que decompõem matéria orgânica, reciclando nutrientes. Noventa por cento das plantas dependem deles: trocam açúcares por minerais por meio de simbiose radicular.
Essa colaboração cria “redes de madeira“, onde árvores antigas nutrem os jovens por meio de micélios compartilhados.
Da Tasmânia a Yunnan: biodiversidade ancestral
No Tarkine (Tasmânia), florestas com micélios de 65 milhões de anos abrigam espécies desconhecidas. Enquanto isso, Yunnan (China) concentra mais de 6.000 espécies de cogumelos.
O biólogo Peter Mortimer, do Instituto Botânico de Kunming, revelou descobertas revolucionárias: “Descobrimos quatro novas espécies que digerem plástico“.
Esses cogumelos decompõem filmes em laboratório, oferecendo uma maneira de reduzir 400 milhões de toneladas de resíduos plásticos anualmente.
Medicina e materiais do futuro
Os cogumelos já salvaram vidas: a penicilina combate infecções bacterianas, enquanto outros compostos tratam câncer ou epilepsia. Em Nova York, a empresa Ecovative Design inova com materiais sustentáveis.
“Cultivamos alternativas recicláveis ao plástico usando micélio”, explica Eben Bayer, seu diretor executivo. A cientista Molly Bolton acrescenta: “Podem ser usados em implantes médicos e até órgãos”.
Ameaças e urgência
Apesar de sua resiliência, os cogumelos enfrentam o desmatamento: perdemos um campo de futebol de floresta a cada dois minutos.
Esses ecossistemas absorvem 5 bilhões de toneladas de CO₂ anualmente. Sheldrake adverte: “Estamos queimando a biblioteca da vida, como Alexandria”.
Sua extinção comprometeria o ciclo da água, já que os esporos fúngicos geram nuvens e chuva em florestas globais.
A corrida para mapear a diversidade fúngica é vital. Com apenas 5% das espécies conhecidas, cada descoberta revela soluções ocultas em redes milenares. Protegê-los não é opcional: é preservar as bases da vida terrestre.





