Nesta segunda-feira, o Governo finalmente enviou ao Congresso o projeto de reforma da Lei de Glaciares.
A iniciativa, antecipada há semanas pelo presidente Javier Milei, busca modificar a normativa ambiental vigente desde 2010.
Em particular, esta reforma visa facilitar investimentos minerários em áreas cordilheiranas, conforme confirmou o Gabinete do Presidente através de um comunicado.
A proposta oficial apresentada pelo Executivo agora deverá ser tratada durante o período de sessões extraordinárias. A intenção é obter uma aprovação acelerada do Congresso antes de 30 de dezembro.
Devido a uma flexibilização dos termos da norma vigente, o projeto gera preocupação em setores ambientalistas. Isso se deve às suas implicações sobre a proteção de glaciares.
A reforma que o Governo quer da Lei de Glaciares
Ao apresentar sua proposta de reforma, o Executivo criticou duramente a normativa atual, a qual qualificou como “mal chamada ‘Lei de Glaciares’“.
Segundo o comunicado oficial, esta norma tem “graves falhas interpretativas que geram insegurança jurídica“. Além disso, paralisam investimentos produtivos e afetam o legítimo exercício das competências provinciais”.
Por isso, a reforma da lei apresentada ao Congresso propõe delimitar a proteção e se concentra unicamente em glaciares que cumpram “uma função hídrica efetiva“. Isso é um ponto que preocupa as organizações conservacionistas.
Assim, isso poderia excluir amplas áreas do chamado ambiente periglacial, o qual também é crucial para o meio ambiente e a provisão de água.
Segundo o Governo, a normativa vigente obstrui “sob pretextos ideológicos” o desenvolvimento econômico do país.
No entanto, os críticos da reforma apontam que as mudanças poderiam afetar o meio ambiente. Preveem um maior impacto da mineração em áreas de cordilheira.
Semanas atrás, mais de 25 organizações ambientalistas, científicas e sociais divulgaram um comunicado alertando sobre os riscos de modificar esta norma.

Para Greenpeace, a reforma implica um «retrocesso ambiental» de magnitude sistemática e aponta que «sem glaciares não há água».
O especialista em glaciologia do CONICET, Lucas Ruiz, adverte que existem glaciares visíveis e «ocultos» —como os de escombros ou periglaciares— que cumprem funções hidrológicas.
Por isso, relaxar a proteção seria «uma ameaça direta» para essas funções vitais.
Em contraste, a administração de Milei vende a iniciativa como “uma verdadeira reforma de federalismo ambiental“. Afirmam que cumpre compromissos do Pacto de Maio.
Isso se deve ao fato de que, se aprovada, a proposta transferiria uma maior autoridade às províncias. Estas poderiam definir quais territórios proteger e quais não. Isso deixa nas mãos de cada gestão provincial o debate entre cuidado ambiental e investimentos minerários.
A pressão do setor minerário
A reforma da Lei de Glaciares responde a reivindicações das províncias integrantes da Mesa do Lítio (Catamarca, Jujuy e Salta) e da Mesa do Cobre (Mendoza e San Juan).
Esses governos provinciais solicitaram avançar para um modelo federal que facilite a exploração de recursos naturais.
A Argentina conta com quatro dos doze maiores projetos de cobre greenfield do mundo, com um investimento potencial de US$ 30 bilhões.
Por isso, o setor minerário exerce pressão há anos para modificar a normativa ambiental no Congresso.
É por isso que, durante o último ano, o presidente Milei antecipou sua vontade de reforma da Lei de Glaciares, com apoio ao enfoque provincial.
O mandatário detalhou previamente que a iniciativa surgiu por proposta do governador de Mendoza, Alfredo Cornejo. A ideia é “aproveitar as riquezas naturais que nos foram oferecidas”.

O debate no Congresso
O Poder Executivo solicitou ao Congresso dar “pronto tratamento” ao projeto e assegurar a “correta participação da cidadania” durante o processo legislativo.
A administração nacional expressou que esta reforma representa “um passo decisivo para colocar a Argentina de pé”, no entanto, organizações ambientalistas discordam.
A apresentação formal ocorreu após mais de quinze anos de vigência da Lei N.º 26.639.
Em 2019, a Corte Suprema de Justiça instou a Nação e as províncias a chegarem a um “acordo federal“. O objetivo era compatibilizar a aplicação da norma.
A discussão agora se transfere para o Congresso, onde o Executivo espera acelerar o tratamento para gerar um clima de negócios favorável.



