A associação INTERCIDS, Operadores jurídicos pelos animais, advertiu que o modelo de negócio dos zoológicos —baseado na exibição de animais e sua reprodução em cativeiro— não tem lugar na futura Lei dos Grandes Símios que está sendo preparada pelo Ministério dos Direitos Sociais da Espanha.
O alerta foi dado em 16 de janeiro, dia em que a Associação Ibérica de Zoos e Aquários (AIZA) realizou no Congresso dos Deputados uma jornada intitulada “Ciência, legislação e grandes símios: rumo a uma normativa baseada em evidências”. O evento coincidiu com a fase final do anteprojeto de lei, elaborado a partir de uma proposta apresentada em 2024 por INTERCIDS e a Fundação Franz Weber.
Objetivos da Lei dos Grandes Símios
A iniciativa busca:
- Reforçar a proteção jurídica dos grandes símios.
- Reconhecer seus direitos como animais sencientes e altamente sociais.
- Garantir uma conservação compassiva.
- Reduzir sua coisificação e sofrimento.
INTERCIDS sustenta que essas metas são incompatíveis com as condições de cativeiro e exibição próprias dos zoológicos atuais.
Críticas ao modelo zoológico
Os parques zoológicos, em sua maioria empresas privadas, baseiam sua sustentação econômica na exibição permanente de animais selvagens. Para isso, organizam espetáculos, promovem fotografias com animais e fomentam interações que perpetuam o cativeiro.
INTERCIDS adverte que a exibição implica um círculo vicioso de criação e intercâmbio constante entre zoos, o que contradiz as recomendações da UICN, que desaconselha criar grandes símios em cativeiro por motivos de conservação.
Argumentos questionados
- Os zoos costumam se apresentar como “arcas de Noé” para preservar populações geneticamente viáveis. No entanto, desconhece-se a genética real de muitos indivíduos e os problemas de hibridação são frequentes.
- Muito poucos animais nascidos em zoológicos são reintroduzidos na natureza.
- No caso dos grandes símios, o cativeiro impede o desenvolvimento de seus comportamentos naturais complexos.

Contradições reconhecidas pelo setor
Documentos internos da EAZA (Associação Europeia de Zoos e Aquários) evidenciam as tensões:
- O European Studbook do chimpanzé (2018) aponta que é necessário aumentar a criação para “atender às necessidades de exibição”.
- Em orangotangos, o guia de boas práticas reconhece um excesso de machos nos zoos europeus.
- Em gorilas, aumenta o número de machos que não podem ser alocados em programas reprodutivos.
INTERCIDS destaca a paradoxo: essas espécies estão em perigo de extinção na natureza, enquanto os zoológicos reconhecem um “excesso” de indivíduos em cativeiro.
Bem-estar animal em questão
Embora o setor afirme que o bem-estar está garantido, diversos estudos indicam que o cativeiro é o principal fator causal de comportamentos anormais em grandes símios.
Exemplo paradigmático: os orangotangos, espécie arborícola e semi-solitária, requerem privacidade. Nos zoológicos vivem em espaços reduzidos, em grupos sociais antinaturais e sob constante exposição ao público.
A evidência científica confirma que os grandes símios possuem autoconsciência, cultura e sistemas sociais complexos. Em cativeiro, apresentam problemas físicos (doenças cardíacas, respiratórias, sobrepeso) e psicológicos (estresse, depressão, ansiedade, autolesões).
Risco de influência do lobby zoológico
INTERCIDS expressou sua preocupação diante do perigo de que os zoológicos sejam erigidos como referências científicas no debate legislativo, quando seu modelo de negócio continua ancorado na criação e exibição de animais selvagens, incompatível com a proteção real dos grandes símios.
A entidade confia que a tramitação da lei mantenha sua essência:
- Reconhecimento de direitos básicos para os grandes símios.
- Proibição de sua exibição e criação em cativeiro.
- Reforço das estratégias contra o tráfico ilegal.
- Promoção de projetos de proteção e conservação em seus países de origem.
O debate sobre a futura Lei dos Grandes Símios na Espanha enfrenta dois modelos irreconciliáveis: o negócio de exibição dos zoológicos e a proteção jurídica de animais altamente inteligentes e sociais. A decisão legislativa marcará um precedente na forma como a sociedade reconhece e defende os direitos dos grandes símios.



