Os papagaios barranqueiros, pousados em fios ou formando ninhos gigantes em galhos, tornaram-se parte do cartão postal cotidiano da Patagônia. No entanto, o que muitos interpretam como uma superpopulação invasiva é, na verdade, um fenômeno muito diferente.
Uma pesquisa do Conicet, liderada pelo biólogo Alejandro Gatto, revela que a população de papagaios barranqueiros caiu 40% em relação aos seus níveis históricos. “Não há uma invasão, a população está cada vez menor”, afirmou o especialista, contradizendo a percepção popular.
Por que parecem mais presentes nas cidades?
A explicação é clara: os papagaios se agrupam onde está a população. Antes, eles estavam dispersos em seu habitat natural, o monte nativo, mas a perda desse ambiente os obriga a se refugiar em vilas e cidades.
Ao não encontrar seus brotos e frutos naturais, recorrem a plantas ornamentais e cultivos, uma dieta que os cientistas consideram prejudicial à sua saúde. Gatto resume com uma metáfora: “Nas cidades, sobrevivem, mas é como comer fast food ou junk food. A longo prazo, faz mal”.

Perda de habitat e fatores de pressão
A mudança no uso da terra, tanto no sul de Buenos Aires quanto na costa de Rio Negro, foi determinante. O monte nativo foi substituído por plantações e cultivos, deixando as colônias sem refúgios noturnos nem sustento.
Em Puerto Madryn, o problema se agravou pelos incêndios rurais que, há mais de uma década, reduziram drasticamente a quantidade de arbustais. Sem esses grandes arbustos, os papagaios perdem sua “casa” e são forçados a buscar alimento e refúgio em ambientes urbanos.
Impacto na espécie e a esperança
A dieta urbana e ornamental não só altera seu comportamento, mas compromete sua saúde e capacidade reprodutiva. A falta de monte nativo implica menos espaços para dormir e menos frutos e folhas para se alimentar, o que enfraquece as colônias.
Apesar do panorama crítico, existe uma luz de esperança: a regeneração natural. Em áreas afetadas por incêndios, já começam a crescer arbustos de meio metro, embora ainda falte muito tempo para que os papagaios possam voltar a habitar plenamente o monte nativo.
Convivência inevitável
Enquanto isso, a convivência será obrigatória. “Vamos ter que nos acostumar com os papagaios”, sentencia Gatto. Em outras regiões, como o sul de Buenos Aires ou a costa de Rio Negro, sua presença urbana já é habitual há anos.
A suposta “invasão” de papagaios barranqueiros na Patagônia é, na verdade, o reflexo de uma crise ambiental: a perda do monte nativo e os incêndios rurais os obrigam a se refugiar nas cidades. Longe de ser uma praga, sua população está em declínio e sua sobrevivência depende da recuperação dos ecossistemas naturais.



