Plásticos dos anos 60, descartados no Canadá, reaparecem na Escócia revelando a persistência da poluição

Na praia de Howar Sands, no arquipélago de Orkney da Escócia, os voluntários enfrentam um cenário incomum. Entre os plásticos encontravam-se garrafas e fragmentos com marcas e datas que remetem às décadas de 1960 e 1970.

A descoberta transformou uma jornada habitual de limpeza em um alerta ambiental. O que antes era uma tarefa manejável tornou-se a coleta de centenas de objetos e milhares de microfragmentos.

Além disso, parte do material apresenta inscrições que sugerem origens distantes, até mesmo do Canadá. Isso confirma que os resíduos podem percorrer oceanos durante décadas antes de chegar à costa.

Plásticos dos anos 60, descartados no Canadá, reaparecem na Escócia revelando a persistência da poluição. Foto: Meteored.
Plásticos dos anos 60, descartados no Canadá, reaparecem na Escócia revelando a persistência da poluição. Foto: Meteored.

Números que não batem e microplásticos invisíveis

Os organizadores das limpezas dominicais registraram um salto abrupto na quantidade de lixo. De apenas 42 garrafas coletadas em 2025, a contagem passou para centenas em 2026.

No entanto, o maior desafio não são as embalagens grandes, mas sim as partículas diminutas. Em apenas um metro quadrado foram contabilizados milhares de fragmentos de poliestireno, difíceis de retirar e fáceis de ingerir por aves e peixes.

Em uma superfície de 70 metros quadrados foram estimadas mais de 300.000 peças pequenas. Essa magnitude transforma cada limpeza em uma corrida desigual frente a um problema que se renova com cada temporal.

Tempestades, erosão e lixo histórico

Especialistas atribuem o fenômeno a condições meteorológicas extraordinárias. Ventos intensos do sudeste e tempestades sazonais podem remover sedimentos e arrastar resíduos antigos para a costa.

A Marine Conservation Society adverte que a erosão de aterros costeiros também libera plásticos enterrados há décadas. Assim, materiais considerados “do passado” retornam ao circuito marinho.

Em Sanday, onde se localiza Howar Sands, a preocupação transcende o estético. A praia é um local de especial interesse científico pela nidificação de aves, por isso a presença de plásticos implica riscos diretos para a fauna.

Plásticos dos anos 60, descartados no Canadá, reaparecem na Escócia revelando a persistência da poluição. Foto: Meteored.
Plásticos dos anos 60, descartados no Canadá, reaparecem na Escócia revelando a persistência da poluição. Foto: Meteored.

Quanto tempo leva para o plástico se degradar?

Um dos aspectos mais inquietantes é a longevidade do material encontrado. Uma garrafa plástica comum pode levar entre 400 e 500 anos para se degradar, embora na realidade não desapareça completamente.

No ambiente marinho, o plástico se fragmenta em microplásticos devido à ação do sol e das ondas. No entanto, esses fragmentos persistem e podem se incorporar à cadeia alimentar. O poliestireno expandido, presente em grandes quantidades em Orkney, pode se desintegrar em milhões de partículas microscópicas. Estas podem permanecer durante séculos em sedimentos e águas.

Por isso, a frase “o lixo nunca desaparece” adquire dimensão científica. O que se descarta hoje pode retornar às praias dentro de décadas, impulsionado por correntes e tempestades.

Consequentemente, as limpezas comunitárias são fundamentais, mas insuficientes sem uma redução global do consumo de plásticos. O caso de Orkney demonstra que o oceano conserva memória e que cada resíduo tem uma história que pode voltar à superfície.

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