A Argentina interrompe uma tradição de bem-estar ao permitir novamente a exportação de animais vivos para abate. O decreto 133/2025, assinado em fevereiro, reverte uma proibição de mais de cinco décadas e acende um alerta na consciência ecológica e ética do país.
Durante esses transportes, milhares de bovinos são confinados em navios por semanas, amontoados, desidratados e expostos a doenças, sem atenção veterinária adequada. Além disso, incidentes como naufrágios ou incêndios agravam o sofrimento e expõem os animais a destinos com padrões mínimos de proteção animal.
O decreto revoga uma norma histórica de 1973 e retrocede nos avanços conquistados na legislação animal, contrastando fortemente com a tendência global que reduz ou proíbe o comércio de animais vivos por razões éticas, sanitárias e ambientais.

Na contramão mundial
Enquanto vários países avançam em direção à proibição — como Reino Unido, Alemanha, Nova Zelândia e outros—, a Argentina decide dar um passo atrás. Normaliza uma prática considerada globalmente obsoleta e cruel, favorecendo interesses comerciais em detrimento da saúde pública e do respeito aos animais.
A abertura não se restringe ao gado bovino: também facilita a exportação em grande escala de animais vivos para abate, para além do comércio de equinos ou animais esportivos autorizados de forma limpa. Isso intensifica os riscos inerentes ao transporte, com impactos diretos na qualidade de vida dos animais e na percepção internacional do país.
Além disso, a medida coloca em xeque o reconhecimento legal dos animais como seres sencientes, presente em várias decisões judiciais recentes, e toca em pontos sensíveis de produtores, autoridades e sociedade civil. As vozes críticas alertam que o decreto prioriza o desempenho econômico em detrimento da compaixão e do bem comum.

Diferentes leis de proteção animal na Argentina
Nos últimos anos, a Argentina avançou no reconhecimento legal dos animais. Em nível nacional, a Lei 27.330 declara sua condição de seres sencientes, obrigando a promover políticas de proteção. Além disso, a Lei 27.605 proíbe a utilização de animais vivos em circos e espetáculos públicos.
Além disso, várias províncias e municípios possuem leis próprias: a Cidade de Buenos Aires regula o transporte e cuidado dos animais, enquanto províncias como Córdoba e Mendoza estabelecem penalidades para maus-tratos e exigem diretrizes de bem-estar animal para atividades rurais.
No entanto, a autorização da exportação de animais vivos revela uma lacuna legal e uma contradição entre a legislação e as práticas atuais. Grupos de proteção animal e a sociedade civil estão pressionando por ajustes urgentes para alinhar a legislação existente com os princípios de proteção e saúde pública já incorporados, exigindo coerência e comprometimento real.



