Rio Negro aprova lei que permite a comercialização de fauna nativa e desmantela o corpo de guardaparques.

Em uma decisão legislativa controversa, a província de Río Negro aprovou em 3 de julho passado um novo regime de gestão integral da fauna silvestre que autoriza a comercialização e exportação de espécies nativas e seu material genético, elimina a figura do guarda-florestal provincial e modifica competências chave na proteção ambiental, gerando fortes críticas de setores ecologistas, científicos e representantes comunitários.

A iniciativa foi promovida pelo governador Alberto Weretilneck, com acordo de ministros, e sancionada por maioria governista em uma única votação parlamentar, sem instâncias de debate cidadão ou consulta técnica ampla.

Fauna nativa em perigo: uma lei que abre caminho para o mercado

O texto substitui a histórica lei Q Nº 2056 de 1985 e entre seus pontos centrais:

  • Autoriza a exploração econômica da fauna silvestre
  • Permite a comercialização de esperma e óvulos de espécies endêmicas, como a mojarrita nua ou o sapinho de Challhuaco
  • Elimina o corpo de guardas-florestais provinciais
  • Transfere a competência de gestão da fauna de Meio Ambiente para a área de Desenvolvimento

As espécies afetadas incluem o guanaco, o avestruz patagônico, o pudú-pudú, a avestruz e outras espécies nativas usadas de forma tradicional por comunidades mapuche-tehuelche e crioulas rurais, que agora podem ser alvo de exploração comercial.

“Inicia-se uma mercantilização da vida silvestre sem precedentes, comparável aos modelos de extração de marfim na África”, alertaram da Fundação Pantanais, que denunciou impactos ecológicos graves e vazios científicos na formulação do regime.

Guardas-florestais sem veículos para mais de 200.000 km²

Durante o debate nas comissões, a deputada Magdalena Odarda (Vamos com Todos) solicitou informações sobre a capacidade operacional atual de fiscalização: o governo reconheceu que apenas cinco agentes e três veículos cobrem uma superfície de 203.013 km², com responsabilidades sobre 14 reservas privadas de caça, muitas delas localizadas em áreas sensíveis como o Parque Nacional Nahuel Huapi e zonas de conflito territorial indígena.

Caça, territórios e capital estrangeiro

A nova lei também borra a diferença entre:

As reservas atualmente habilitadas incluem:

  • Bariloche: FutannTüe, El Ñandú, El Cóndor, Río Villegas e Río Foyel
  • Pilcaniyeu: Cerro David e Limay Sur
  • Adolfo Alsina: Peumayén, El Porrón e Loma Blanca
  • Conesa: San Benito
  • Pichi Mahuida: El Águila e La Luna
  • Avellaneda: La Celestina

Muitos desses espaços estão localizados em terras em conflito com comunidades originárias, e sua habilitação prévia já havia gerado controvérsia por falta de consulta e planejamento ambiental.

Uma visão global, uma decisão local

Enquanto a nível internacional avança-se no reconhecimento da natureza como sujeito de direito, esta lei reativa um modelo de livre mercado sobre a vida silvestre, com paralelismos neocoloniais e ausência de proteção para espécies vulneráveis.

“A captura de guanacos e avestruzes para fins comerciais não pode ser comparada ao autoconsumo de populações rurais. Este tipo de leis ignoram conhecimentos ancestrais, agravam a perda de biodiversidade e esvaziam o papel do Estado como garantidor ambiental”, destacaram especialistas independentes.

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