Um estudo recente publicado na revista científica Science of The Total Environment conclui que mais de 50% das plantas consumidas por povos tradicionais e indígenas da América Latina dependem da polinização das abelhas, insetos que enfrentam altos níveis de ameaça na região e em todo o mundo.
O papel dos polinizadores na dieta tradicional
Pesquisadores da Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Colômbia, Peru, México e Uruguai revisaram relatórios técnicos e artigos científicos publicados entre 1991 e 2022 para identificar as espécies vegetais que fazem parte da dieta de comunidades indígenas e pequenos produtores rurais.
- Foi elaborada uma lista de 82 espécies utilizadas para o consumo de frutos e sementes.
- Ao cruzar essa informação com registros de polinizadores, foram identificados nove grupos principais.
- As abelhas representam 51,9% das interações, com 87,6% delas realizadas por espécies nativas e 10% pela espécie introduzida Apis mellifera.
Outros polinizadores essenciais
Embora as abelhas sejam protagonistas, outros insetos e animais também desempenham um papel chave:
- Moscas: 13%
- Besouros: 9,19%
- Vespas: 7%
- Borboletas: 6,5%
- Mariposas: 5,94%
- Beija-flores: 2,7%
- Morcegos: 2,16%
Esses organismos atuam como vetores complementares de pólen ou participam de sistemas de polinização altamente especializados.
Exemplos de dependência crítica
- Cacau (Theobroma cacao)**: depende completamente de duas espécies de moscas ceratopogonídeas.
- Mangaba (Hancornia speciosa)**: fruta do Cerrado brasileiro cuja polinização depende exclusivamente de mariposas noturnas esfingídeas.

Ameaças e consequências
As interações especializadas estão em risco por atividades humanas:
- Uso intensivo de fertilizantes químicos.
- Destruição e degradação de áreas florestais.
- Avanço das mudanças climáticas.
Na América Latina, entre 2016 e 2018 perdeu-se 30,4% das colmeias de abelhas melíferas e 39,6% das colmeias de abelhas sem ferrão.
Isso compromete a segurança alimentar de comunidades que dependem de frutos e sementes para sua nutrição e sustento econômico. Além disso, pode provocar um aumento nos preços de produtos agrícolas para a população em geral.
Vozes de especialistas
- Rubem Samuel Ávila Jr. (Universidade Federal de Pampa, Brasil): “Proteger os polinizadores é uma ação estratégica para o desenvolvimento sustentável, pois salvaguarda o meio ambiente, a economia e os meios de vida”.
- Isabela Galarda Varassin (Universidade Federal do Paraná): “Qualquer alteração nas interações entre plantas e polinizadores pode comprometer o acesso a nutrientes essenciais para os povos indígenas”.
- Carmen Pires (Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia): “As interrupções nessas interações colocam em risco o sustento de pequenos agricultores e podem aumentar os preços dos alimentos”.
O estudo reforça a necessidade de políticas efetivas de conservação de polinizadores na América Latina, focadas em:
- Proteger áreas naturais próximas a cultivos.
- Manter populações locais de polinizadores.
- Integrar a conservação com o conhecimento tradicional indígena.
Com 87% das espécies vegetais do mundo dependentes de animais para sua polinização, a proteção de abelhas e outros polinizadores é chave para garantir a segurança alimentar, a biodiversidade e a sustentabilidade econômica das comunidades rurais e indígenas.
Por Rodrigo de Oliveira Andrade/SciDev.Net



