A empresa Sigma Lithium, com sede no Canadá e operações no estado brasileiro de Minas Gerais, promoveu seu produto estrela como “lítio verde quíntuplo zero”.
A empresa utiliza tecnologias que supostamente garantem zero água potável utilizada, zero barragens de rejeitos, zero eletricidade carbono intensiva, zero produtos químicos tóxicos e zero emissões líquidas de carbono.
No entanto, uma investigação jornalística revela que parte dessa neutralidade climática foi alcançada por meio de créditos de carbono vinculados a um projeto sob suspeita de crimes ambientais na Amazônia.
Créditos de carbono em questão: compensações sob investigação
Em 2023, a Sigma anunciou seu primeiro carregamento de 30.000 toneladas de lítio verde enviado à China, assegurando que era carbono neutro graças à compra de 59.000 créditos de carbono.
O projeto que gerou esses créditos está atualmente suspenso pela certificadora internacional, após ser vinculado a desmatamento ilegal, apropriação de terras públicas e corrupção, segundo a Operação Greenwashing da Polícia Federal brasileira.
A empresa não esclareceu se substituiu esses créditos nem que diligência realizou antes de adquiri-los, o que põe em dúvida sua afirmação de “zero emissões”.
Mudança de estratégia e silêncio corporativo
A Sigma declarou que desde 2024 deixou de usar créditos de carbono e optou por reduzir diretamente suas emissões. Isso foi sem explicar o que motivou a mudança nem se informou seus compradores e acionistas sobre os problemas do projeto Unitor. Também não respondeu a perguntas sobre seus procedimentos de verificação ambiental.
Impactos comunitários: denúncias do “Lithium Valley”
Além da questão climática, 68 organizações comunitárias, indígenas e sindicais denunciaram em agosto de 2025 os impactos negativos do projeto minerador no vale do Jequitinhonha, onde a Sigma opera:
- Altos níveis de poeira e ruído
- Rachaduras em residências
- Problemas respiratórios e de pele
- Perdas na produção agrícola
Essas denúncias foram respaldadas por um estudo do Instituto de Defesa do Consumidor (Idec). O mesmo questionou o financiamento estatal concedido à Sigma pelo BNDES, apontando uma possível contradição entre o discurso de sustentabilidade e as práticas reais.

Parecer do MPF: vulnerabilidade e falta de consulta prévia
Em dezembro de 2024, o Ministério Público Federal (MPF) advertiu que a exploração de lítio tem alto impacto ambiental e pode agravar a vulnerabilidade de comunidades tradicionais. O parecer identificou:
- Deficiências em estudos hídricos
- Falhas em licenças ambientais
- Ausência de consulta livre, prévia e informada
Em setembro de 2025, o MPF solicitou a suspensão de autorizações mineradoras em Araçuaí, onde a Sigma opera, enfatizando o direito das comunidades de serem ouvidas antes da aprovação de projetos.
Brasil no mapa do lítio: tensões entre expansão e proteção
Embora o foco do mercado de lítio geralmente esteja no triângulo ABC (Argentina, Bolívia, Chile), o Brasil busca se posicionar com 1,3 milhão de toneladas de recursos estimados, segundo o Serviço Geológico dos EUA.
Ao contrário de seus vizinhos andinos, o lítio brasileiro é extraído de pegmatitos vulcânicos, e a prospecção já alcança até mesmo a Amazônia, afetando 21 áreas protegidas, segundo outra investigação do Repórter Brasil.
O caso Sigma Lithium expõe as contradições entre a narrativa de sustentabilidade e os impactos reais da mineração de lítio. Esta situação ocorre em um contexto onde a transição energética não pode avançar sem justiça ambiental, transparência corporativa e respeito pelos direitos das comunidades.



