A Argentina ratificou em julho de 2025 um acordo essencial da Organização Mundial do Comércio (OMC) que proíbe os subsídios à pesca ilegal, destrutiva e não regulada.
Agora, esta medida já impacta de forma direta nas frotas que operam no Atlântico Sul e representa uma mudança histórica após anos de negociações internacionais.
O problema dos subsídios na pesca ilegal
Atualmente, grande parte da frota pesqueira que opera em águas do Atlântico Sul recebe subsídios governamentais que garantem sua rentabilidade.
Isso acontece mesmo quando violam normas trabalhistas e ambientais.
“É como se um negócio do outro lado da rua não pagasse impostos e o Estado o recompensasse com eletricidade e serviços gratuitos. Nenhum sistema no mundo funcionaria assim”, aponta Milko Schvartzman, especialista em pesca ilegal na América Latina.

As frotas afetadas provêm principalmente da China, Coreia do Sul, Taiwan e Espanha e seu modelo de negócio depende desses subsídios para ser rentável.
“Sem esses subsídios, muitas embarcações terão que operar com prejuízo, e isso provavelmente reduzirá a pressão sobre o ecossistema“, explica Schvartzman.
O impacto da pesca ilegal no ecossistema marinho
O calamar Illex argentinus, segunda espécie mais capturada do mundo, é o principal alvo dessas frotas de pesca ilegal. Sua extração massiva afeta:
- Merluzas
- Cachalotes
- Golfinhos
- Aves marinhas
- Pinguins
- Lobos marinhos
“Qualquer redução dessa frota predadora terá um impacto positivo direto sobre todo o ecossistema“, assegura o especialista.
Além da captura do calamar, mamíferos marinhos, tubarões e aves também sofrem capturas incidentais ou intencionais, enquanto os barcos continuam poluindo as águas.
Agora, o acordo da OMC representa um passo concreto para reduzir a predação e proteger a biodiversidade marinha.
“Isso não é apenas um sinal, terá repercussão no mundo real. É um passo enorme para que o Atlântico Sul comece a se recuperar”, reforça Schvartzman.
Os resultados esperados incluem menos barcos destrutivos, mais espécies protegidas e comunidades costeiras fortalecidas.
A combinação de regulação internacional, vigilância tecnológica e consciência do consumidor abre a possibilidade de uma mudança tangível na proteção do oceano.

O papel da Argentina no acordo da OMC
A Argentina é um dos impulsores do acordo desde 2017.
“Durante uma reunião da OMC em Buenos Aires, a Argentina foi um dos impulsores e tentou que o acordo fosse aprovado. Sempre esteve impulsionando; praticamente se tornou política de Estado“, lembra Schvartzman.
O acordo permitirá assim equilibrar a competição com pescadores legais.
“Competem de maneira desleal com frotas que utilizam mão de obra escrava, não cumprem normas ambientais nem trabalhistas, e ainda recebem subsídios“, detalhou o especialista.
E sentenciou: “Este acordo vai ajudar a acabar com essa competição desleal“.
Os desafios pendentes para cuidar dos mares
Apesar do avanço, atualmente a fiscalização ainda é um problema.
Isso ocorre porque a ausência de um organismo de regulação no Atlântico Sul dificulta o controle.
“Deveria existir uma comissão como a CAMLR da Antártida, onde se monitore o que se pesca, como se pesca, haja observadores e patrulhas“, alerta Schvartzman.
Além disso, a fraude na rotulagem também preocupa.
Na Argentina, quase 40% do peixe oferecido no comércio não corresponde à espécie indicada.
Assim, conhecer a origem dos produtos e exigir rastreabilidade fortalece a pesca legal e sustentável.



