Frente ao avanço das mudanças climáticas e o aumento das ondas de calor, planejar cidades mais frescas é um dos grandes desafios urbanos
Por isso, pesquisadores do CONICET desenvolveram uma ferramenta digital que permite antecipar como as decisões urbanísticas influenciam na temperatura do ar.
Este modelo já foi implementado na cidade de Mendoza, onde as máximas facilmente superam os 30°C no verão.
A plataforma se chama FORMA3T e é de acesso gratuito. Esta permite estimar a temperatura exterior em bairros residenciais a partir de variáveis urbanas concretas.
Entre estas, são considerados fatores como a largura das ruas, a altura das residências ou a orientação da trama.

Como funciona a ferramenta para planejar cidades mais frescas
O sistema foi criado por pesquisadores do Instituto de Ambiente, Hábitat e Energia (INAHE) do CONICET.
Este calcula de forma rápida e acessível a temperatura do ar em diferentes cenários urbanos, o que facilita avaliar o conforto térmico dos bairros.
“O nome FORMA3T surge porque analisamos a forma urbana, sua geometria, e a plataforma devolve três valores de temperatura: máxima, mínima e média“, explica Belén Sosa, pesquisadora do CONICET no INAHE.
A plataforma se apoia em mais de 500 simulações urbanas realizadas com o software ENVI-met.
Por exemplo, esta avalia o impacto de modificar a arborização pública, mudar a orientação das ruas ou ajustar sua largura.
Essas simulações foram ajustadas com medições reais de campo e sintetizadas em modelos matemáticos capazes de prever temperaturas com poucos dados de entrada.
“A ideia foi sintetizar anos de trabalho científico em uma plataforma simples, que não requer comprar software nem ter conhecimentos técnicos avançados”, destacou Sosa.
Por isso, o sistema de cálculo é instantâneo e permite comparar alternativas de design para projetos novos ou áreas já construídas.

As variáveis para alcançar cidades mais frescas
Assim, FORMA3T permite repensar o design urbano a partir de uma perspectiva climática.
Em particular, uma vez implementado o projeto na cidade de Mendoza, os resultados confirmam a importância de preservar a arborização urbana.
“Não podemos esquecer da arborização de alinhamento. Manter uma implantação homogênea é fundamental para sustentar a cobertura verde que caracteriza a província”, advertiu Sosa.
Outras variáveis determinantes incluem:
- Largura das ruas: ruas estreitas (16-20 metros) favorecem a sombra e reduzem a temperatura
- Orientação urbana: evitar fachadas oeste que absorvem calor durante todo o dia
- Altura das edificações: influencia na sombra e na circulação do ar
- Distribuição de lotes: afeta a ventilação e o microclima do bairro
“No verão, a fachada oeste absorve calor durante todo o dia e recebe sol direto à tarde”, detalha a pesquisadora.
Por isso, “orientações levemente rotacionadas podem ajudar a manter os espaços exteriores mais frescos“.

As chaves do sistema online de FORMA3T e os planos de crescimento
Os modelos desenvolvidos têm uma precisão superior a 85%, e no caso da temperatura mínima, superam 90%.
Este dado é especialmente relevante para analisar o efeito da ilha de calor urbana.
“As temperaturas mínimas são chave, porque as noites quentes aumentaram e isso obriga o uso de ar condicionado, que por sua vez aquece o entorno“, indicou Sosa.
É que reduzir esse círculo vicioso permitiria diminuir o consumo energético destinado à refrigeração.
Érica Correa, pesquisadora do CONICET no INAHE, destacou também que a ferramenta funciona completamente online.
“O usuário acessa a plataforma, insere dados simples como a largura da rua, e o modelo estatístico devolve as temperaturas do ar estimadas do bairro”, explicou.
FORMA3T foi desenvolvida por Belén Sosa e Érica Correa, junto com Darío Jaime e Stella Maris Donato.
O projeto contou com o apoio da Prefeitura de Mendoza e financiamento do Fundo Verde e linhas do CONICET.
Atualmente, a plataforma está focada em bairros de baixa densidade, com residências de um ou dois níveis.
No entanto, a equipe projeta uma segunda etapa que permita ampliar a análise para áreas de média e alta densidade.
“Começamos pela baixa densidade porque é a mais representativa de Mendoza, mas a ideia é escalar a ferramenta e chegar às outras densidades”, concluiu Sosa.



