Derramamento de petróleo em Magdalena: a Justiça rejeitou o acordo entre a Shell e o município assinado em 2009

Em 15 de janeiro de 1999, o navio Sea Paraná (bandeira alemã) colidiu com o petroleiro Estrella Pampeana da Shell (bandeira liberiana) no Rio da Prata, provocando o derramamento de mais de 5 milhões de litros de hidrocarbonetos. Foi o maior derramamento de petróleo em águas doces da história mundial, com consequências ambientais sem precedentes para a Argentina.

O acordo de 2009

Dez anos depois, em 2009, o Município de Magdalena e a Shell assinaram um acordo que reduzia de 90 milhões de dólares para 9,5 milhões a reparação ambiental. O então prefeito Fernando Carballo impulsionou um plebiscito não vinculante, no qual 77% votaram Sim, e o Conselho Deliberativo aprovou ordenanças que apoiavam o convênio.

O acordo incluía ainda projetos de desenvolvimento turístico, um parque industrial e uma planta de tratamento de resíduos sólidos domiciliares.

A decisão judicial de 2025

O Tribunal Civil e Comercial Federal N°3 de Capital Federal, sob a responsabilidade do juiz Juan Rafael Stinco, rejeitou o acordo em 30 de dezembro de 2025 (publicado após o recesso judicial de janeiro). A decisão sustentou que:

  • Os direitos ambientais são de ordem pública e não podem ser objeto de negociação privada.
  • O valor acordado era arbitrário e sem fundamento técnico.
  • Não foram identificados parâmetros, estudos ambientais nem critérios objetivos que justificassem a redução para USD 9,5 milhões.

Stinco enfatizou que a vontade das partes não pode ser colocada acima do artigo 41 da Constituição Nacional nem da Lei Geral do Ambiente.

derrame de petróleo
O derramamento de petróleo de 15 de janeiro de 1999 marcou um marco na história ambiental.

Antecedentes judiciais

  • Em 2002, o juiz federal de La Plata Julio César Miralles ordenou à Shell recompor o ambiente por USD 35 milhões.
  • Após apelações, em 2007 a Corte Suprema transferiu o caso para um tribunal federal de Capital Federal.
  • Durante o conflito, até mesmo se buscou a intervenção de Máxima Zorreguieta, então princesa argentino-holandesa, para apoiar Magdalena.

Impacto político e social

O acordo de 2009 foi impulsionado por Carballo, que depois foi senador de Buenos Aires e parte da Frente Renovador. O plebiscito e as ordenanças municipais haviam legitimado o convênio, mas a decisão de 2025 o deixou sem efeito, reafirmando que a proteção ambiental não pode ser subordinada a interesses econômicos ou políticos locais.

A rejeição do acordo entre a Shell e o Município de Magdalena marca um precedente chave na jurisprudência ambiental argentina. A decisão reafirma que os danos ambientais devem ser avaliados com critérios técnicos e científicos, e que a reparação não pode ser objeto de negociações que reduzam seu alcance. O caso continua sendo um símbolo dos desafios entre desenvolvimento econômico, responsabilidade empresarial e defesa do ambiente.

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