Cada 8 de junho celebra-se o Dia Mundial dos Oceanos, e no Cone Sul o foco está no Mar Patagônico. Este ecossistema absorve calor e carbono em silêncio, regulando o clima global a um custo crescente para si mesmo. Suas águas aquecem, as frentes oceânicas mudam e inúmeras espécies deslocam suas áreas de distribuição para o sul.
A pergunta já não é se a mudança chegará, mas quão preparados estarão os ecossistemas para se adaptarem. Ambientes saudáveis têm maior resiliência, por isso fortalecer as Áreas Marinhas Protegidas (AMP) conectadas entre Argentina, Chile, Uruguai e Brasil é hoje a estratégia mais concreta frente à mudança climática.
Avanços recentes em conservação
Em março de 2026, o Brasil criou o Parque Nacional Albardão, o maior parque marinho do extremo sul do país. Este local havia sido identificado como prioritário desde o ano 2000 e apontado pelo Fórum como um dos “Faróis do Mar Patagônico”. Após décadas de ciência e cooperação regional, o decreto presidencial abriu uma nova etapa de proteção.
“Albardão não é o destino de 20 anos de trabalho. É o ponto de partida para o que vem a seguir”, afirmou Carolina Contato de NEMA, Brasil.
Pressão climática sem precedentes
As águas frias do Atlântico Sudoeste absorvem mais CO₂ do que qualquer mar tropical, mas essa função reguladora enfraquece com o aquecimento e a acidificação. Segundo Santiago Krapovickas, do Programa Mar Patagônico Resiliente, conservar e manejar adequadamente as AMP fortalece a capacidade de adaptação e favorece o bem-estar das comunidades costeiras.
Conexão regional de ecossistemas
O Mar Patagônico conecta os ecossistemas de Argentina, Chile, Uruguai e Brasil por meio de correntes oceânicas e rotas migratórias que sustentam a vida de baleias, tubarões, aves marinhas, tartarugas e pinguins. Muitas espécies percorrem milhares de quilômetros atravessando múltiplas jurisdições, o que torna insuficientes as respostas isoladas de cada país.
As AMP bem geridas e conectadas funcionam como refúgios climáticos, permitindo que os ecossistemas se recuperem e continuem prestando serviços essenciais: desde a pesca artesanal até a regulação do clima local.
“O oceano funciona como um único sistema vivo. Sua proteção deve ser pensada de maneira integrada”, afirmou Andrea Michelson, coordenadora regional do Fórum.

Impacto socioeconômico
A degradação do Mar Patagônico já afeta as comunidades pesqueiras artesanais:
- Mudanças nas espécies capturadas.
- Alteração das temporadas tradicionais de pesca.
- Perda de pesqueiros históricos.
A biodiversidade do sul é a base de economias locais, tradições culturais e sistemas alimentares que não têm substituto.
Estratégia regional
O Fórum para a Conservação do Mar Patagônico, que reúne 30 organizações desde 2004, impulsiona uma visão compartilhada: construir uma rede ecologicamente conectada de AMP e corredores de conservação. O programa Mar Patagônico Resiliente busca avançar para um mar “climaticamente inteligente”, capaz de incorporar projeções climáticas na gestão e fortalecer refúgios frente a impactos multidimensionais.
“Proteger o oceano já não é apenas uma causa ambiental. É uma decisão climática, social e econômica”, resumiu Daniela Castro, coordenadora do núcleo chileno do Fórum.
Neste Dia Mundial dos Oceanos, a mensagem é clara: o futuro climático também se joga no sul, no Mar Patagônico. Conservá-lo é garantir biodiversidade, economias locais e resiliência frente à mudança global. É momento de cuidá-lo, é momento de cuidarmos de nós mesmos.



