Um novo bairro privado que está sendo construído em Hudson, Berazategui, tem alertado organizações ambientalistas por avançar sobre uma área protegida.
Este ocuparia cerca de 170 hectares de pântanos, floresta nativa e selva chave para preservar a biodiversidade da costa bonaerense.
Cabe ressaltar que, há pouco mais de um ano, Berazategui declarou por ordenança municipal os “Bosques Nativos de Hudson” como Área Natural Protegida.
O terreno foi adquirido pela desenvolvedora Puerto Nizuc, que projeta um novo bairro privado neste ecossistema único.
Por isso, diversas ONGs locais reclamam tanto ao município quanto à gestão da província de Buenos Aires que intervenham para preservar esses espaços.
No entanto, nas últimas semanas as escavadeiras já começaram a trabalhar sobre um dos últimos relictos de selva marginal da costa bonaerense.

Hudson: a área mais austral da selva marginal em risco por um novo bairro privado
“Este lugar é único. É o relicto de selva marginal mais austral“, afirmou Abril Navarro, naturalista e integrante de Biodiversidade da Costa de Hudson em diálogo com Clarín.
É que este território inclui pastagens naturais com espécies autóctones como cina-cina, molle, tala, espinilho e coronilho.
Esta última planta é o alimento da borboleta bandeira argentina, recentemente declarada de interesse municipal pelo Conselho Deliberante de Berazategui, por isso é especialmente relevante.
Apesar de sua relevância no ecossistema bonaerense, as máquinas já começaram a arrasar o terreno.
Até mesmo derrubar antigos exemplares de Coronilho que abrigavam núcleos dessas borboletas emblemáticas.
Dessa forma, a fauna local também é afetada pelo empreendimento.
Aves, gambás, garças, corujas, preás, lagartos, capivaras e gatos-do-mato habitam a área e, hoje, correm risco de serem deslocados.

Conflito com a Lei de Florestas Nativas
O empreendimento avançaria sobre uma área protegida pela Lei 14.888 provincial de Florestas Nativas, que classifica territórios segundo seu valor de conservação.
A categoria I (vermelha) indica alto valor e proíbe transformações. A categoria II (amarela) permite uso sustentável, e a III (verde) autoriza transformação parcial.
O território dos pântanos de Hudson está atravessado pelas três categorias.
Neste contexto, os moradores denunciam que as máquinas já intervieram em setores com vegetação protegida, violando a normativa ambiental vigente.
O projeto inclusive contempla continuar o desmatamento até o rio.
Isso eliminaria completamente um setor de selva marginal de altíssimo valor ambiental para a regulação hídrica e a biodiversidade da área.
Os avisos técnicos ignorados para urbanizar nos pântanos de Hudson
Um estudo da Universidade Nacional de La Plata e CONICET, solicitado pelo próprio Ministério do Meio Ambiente, desaconselha enfaticamente a urbanização sobre a planície de inundação do Rio da Prata.
O relatório adverte que as tendências de urbanização modificam os padrões naturais de escoamento.
Lá, os aterros de solo e movimentos de terra alterariam a topografia e o comportamento hídrico do território, aumentando o risco de inundações.

Posições encontradas e silêncio municipal pelo novo bairro privado em Hudson
Desde Puerto Nizuc asseguraram ao Clarín que têm “a totalidade das permissões e autorizações ambientais exigidas”.
Além disso, acrescentaram que o projeto incorporou “critérios de planejamento sustentável” e programas de revegetação com espécies autóctones.
Neste contexto, as organizações ambientalistas se reuniram com funcionários do Ministério do Meio Ambiente provincial.
Em particular, participaram o Fórum em defesa do Rio da Prata, Biodiversidade da Costa de Hudson e Preservando Hudson.
Desde o ministério explicaram: “O compromisso da Província de Buenos Aires com o cuidado dos pântanos é total“.
E reforçaram: “É a primeira província que apoiou a Lei dos Pântanos no Congresso”.
Os ambientalistas apontam que o Município deve rezonificar o setor para permitir construções dessa envergadura.
Este passo não estaria cumprido e requer aprovação provincial.
O Município de Berazategui não respondeu consultas sobre esta situação.
Em um caso anterior, o governo local acusou as organizações de agirem “guiados por uma cegueira contra o progresso e a urbanização”.
“Estamos sendo testemunhas de um ecocídio. Está se destruindo um dos últimos relictos de selva marginal mais austral“, expressaram desde as organizações locais.
As entidades apresentaram um pedido de informação pública ambiental ao Ministério, que ainda não obteve resposta.
“Não estamos pedindo um favor: é um direito consagrado por lei”, enfatizaram os moradores.



