Completam-se 15 anos da sanção da Lei de Glaciares, que veio após uma forte pressão da sociedade civil, da comunidade científica e das organizações ambientais.
A norma se tornou um marco na história jurídica ambiental argentina ao estabelecer a proteção dos glaciares e do ambiente periglaciar como reservas estratégicas de água e patrimônio natural nacional.
O que acontece hoje e quais são os desafios em termos ambientais, normativos e políticos aplicáveis.
Aos 15 anos da Lei de Glaciares: situação e reivindicação
A Lei de Glaciares tornou a Argentina também o primeiro país do mundo a sancionar uma norma nacional de proteção desses ecossistemas. Trata-se de um precedente valorizado internacionalmente em plena crise climática e que hoje está em risco diante de políticas negacionistas que buscam desfazer esse caminho.
Durante esses 15 anos, a norma enfrentou questionamentos por parte de setores ligados à megamineração, que procuraram limitar seu alcance. No entanto, em 2019, a Suprema Corte de Justiça ratificou sua constitucionalidade, consolidando-a como uma ferramenta essencial para a política ambiental do país.
A decisão reafirmou que os glaciares e o ambiente periglaciar são bens de caráter público e que, em contextos de conflito, os direitos coletivos como o acesso à água prevalecem sobre interesses individuais.
“Os glaciares em nosso país são fundamentais, pois funcionam como nossas fábricas de água. O que a megamineração quer nos tirar quando ameaça a lei são nossas bacias e rios”, explica Enrique Viale, presidente da Associação Argentina de Advogados Ambientalistas.
“Da cordilheira, eles alimentam populações muito além das fronteiras provinciais. Deles depende uma enorme teia de vida, inclusive a atividade econômica e a saúde de nossos ecossistemas”, acrescenta. “Nesse sentido, os glaciares e seu ambiente periglaciar são fábricas de vida. Eles estão cada vez mais ameaçados pela crise climática, e é por isso que precisamos cuidar deles mais do que nunca”, destaca.
Ameaças atuais e desafios pendentes
O recuo acelerado dos glaciares, agravado pela crise climática global, expõe desafios imediatos para a implementação da Lei. Nos últimos anos, foi registrada a maior perda de glaciares desde que existem medições, e na Argentina, o recuo é a tendência dominante nos glaciares monitorados.
Do Greenpeace Argentina alertam para a urgência de garantir controles eficazes e medidas de proteção reais sobre essas reservas estratégicas de água doce. Em vez de retroceder em seu cuidado com tentativas de invalidação da Lei.
“O recuo sem precedentes dos glaciares expõe a fragilidade de nossa segurança hídrica. Cuidar deles é um dever com as gerações presentes e com as que virão, porque sem glaciares não há futuro possível.”, afirma Agostina Rossi Serra, especialista em biodiversidade da ONG a nível local.
Especialistas alertam que, juntamente com as promessas de grandes receitas econômicas, hoje são utilizados os argumentos da transição energética e da extração de minerais críticos para justificar a flexibilização da Lei. Assim, abrem caminho para projetos extrativos em áreas que deveriam permanecer protegidas.
Também destacam que o Regime de Incentivo para Grandes Investimentos (RIGI) concede benefícios extraordinários às corporações de mineração, o que aumenta a pressão para violar a regulamentação ambiental.
“A paradoxal situação é que, em nome da transição energética, está sendo proposto destruir ecossistemas que hoje nos ajudam a cuidar do planeta”, acrescenta Pía Marchegiani, diretora executiva adjunta da Fundação Ambiente e Recursos Naturais (FARN).
“A Lei de Glaciares foi uma lei com amplo apoio popular e também científico. A evidência científica avançou nesses 15 anos e nos confirma que é um ecossistema que desempenha funções vitais no fornecimento de água e na mitigação das mudanças climáticas”, afirma.
O pedido das comunidades locais
Nos territórios, as comunidades vêm denunciando que, embora a Lei exista, nem sempre é cumprida. A Assembleia Jáchal No Se Toca lembrou que, 10 anos após o vazamento de cianeto e mercúrio em Veladero, os impactos sobre a bacia do rio Jáchal persistem.
A experiência comunitária se tornou prova das deficiências do sistema de controle, afirmam. “Lembramos que, em 2018, o juiz Sebastián Casanello enviou a julgamento o caso contra o ex-secretário de Meio Ambiente Juan José Mussi e o ex-diretor do IANIGLA Ricardo Villalba por violarem a Lei de Glaciares.
Em sua decisão, afirmou que elaboraram um documento em contradição com a lei que impediu a inventariação e proteção de corpos de gelo na cordilheira de San Juan. Lá opera a mina Veladero da Barrick Gold.
Casanello concluiu que essas violações afetaram direitos humanos fundamentais, como o acesso a um ambiente saudável e à água, causando prejuízos à nossa comunidade”, afirmou Saúl Zeballos, referente da Assembleia Jáchal No se Toca.
Os desafios à frente
Os especialistas concordam que proteger a Lei contra tentativas de modificação é essencial para garantir sua vigência.
Neste sentido, apontam para a necessidade de reforçar os controles, garantir a transparência da informação pública. Além disso, assegurar orçamentos adequados para o monitoramento de glaciares e ambiente periglaciar e para a atualização do inventário são medidas-chave.
Aos 15 anos de sua sanção, a Lei de Glaciares permanece como um pilar fundamental da política ambiental argentina.



