A mineração em Mendoza somou um novo capítulo nesta quarta-feira, com sinais contraditórios que acendem alertas ambientais.
É que, anteontem, a Câmara de Deputados de Mendoza aprovou o projeto de mineração San Jorge a 37 km de Uspallata.
Este seria o primeiro com possibilidade de acessar o Regime de Incentivo para Grandes Investimentos (RIGI) na província.
Em contraste, e como forma de mitigar o esperado impacto ambiental de San Jorge, a Câmara Baixa provincial também criou um Fundo de Compensação para restaurar danos ecológicos.
A paradoxo expõe o dilema provincial: impulsionar extração a céu aberto com benefícios fiscais e, simultaneamente, preparar ferramentas de reparação diante de possíveis impactos.
Além disso, essa contradição se aprofunda com a proximidade do projeto ao Rio Mendoza, principal fonte de água potável e irrigação da província.
Na população, a mineração em Mendoza gera preocupação pelo uso de recursos hídricos em uma zona árida, apesar de o governo insistir que os controles ambientais são de “máxima exigência”.
Por isso, centenas de mendocinos reclamaram diante dos legisladores enquanto se votava o projeto.

Os contraditórios projetos aprovados na Câmara de Deputados
A votação do chamado PSJ (Projeto San Jorge) de Cobre Mendocino obteve 32 votos a favor e 13 contra na Câmara de Deputados provincial.
Após a aprovação, o governador Alfredo Cornejo celebrou a decisão: “A meia sanção de PSJ Cobre Mendocino nos aproxima de produzir o cobre que exige a transição energética, a ampliar nossa matriz produtiva e a gerar mais emprego e crescimento para Mendoza”.
Em contraste, o Interbloque PJ, o Partido Verde e deputados de LUM rejeitaram a iniciativa, alertando sobre riscos ambientais e falta de informação completa.
Segundo o comunicado oficial da Câmara, San Jorge “representa a primeira iniciativa de cobre em média escala na província e um dos projetos mais relevantes do país desde Bajo de la Alumbrera”.
No entanto, minutos antes de sua aprovação, os legisladores também deram luz verde a um novo Fundo de Compensação Ambiental.
Com 39 votos afirmativos e 6 negativos, este buscará compensar os danos ambientais das atividades extrativas.
A ministra de Energia e Ambiente, Jimena Latorre, impulsionou o projeto enquadrado no artigo 34 da Lei Geral do Ambiente 25.675.
O projeto de San Jorge agora passará ao Senado provincial, onde se definirá sua aprovação definitiva: se obtiver luz verde, será posto em marcha.
Os detalhes do fundo “verde” de Mendoza
O fundo permitirá financiar ações quando os responsáveis forem insolventes ou não estiverem determinados.
Também atenderá emergências ambientais e executará obras de recomposição ecológica em zonas afetadas.
Os recursos virão de múltiplas fontes:
- Multas, taxas e tributos vinculados à normativa ambiental provincial
- Indenizações judiciais por danos ambientais
- Aportes exigidos em declarações de impacto ambiental
- Subvenções, doações e créditos internacionais
- Rendas geradas por investimentos do próprio Fundo
Assim, a mineração em Mendoza agora contará com esta ferramenta para atuar frente a danos coletivos e restaurar ecossistemas afetados.
Como será o projeto de mineração de San Jorge em Mendoza
O projeto está localizado a 37 km de Uspallata e 97 km da cidade de Mendoza, sobre uma superfície de 9.984 hectares.
Requer um investimento de US$559 milhões e contempla a produção de 40.000 toneladas anuais de cobre fino durante 16 anos, extensíveis a 27.
A mineração a céu aberto extrairá desde 100 metros de profundidade. O processo de flotação, sem uso de ácido sulfúrico, produzirá concentrado com 25% de cobre.
Estima-se que a construção demandará entre 18 e 24 meses, com operações estimadas para 2028.
O emprego projetado alcançaria os 3900 postos durante a construção e 2400 em operação, dos quais 800 serão diretos e 1600 indiretos.
San Jorge representa o primeiro projeto de mineração de Mendoza que pode ingressar no Regime de Incentivo para Grandes Investimentos (RIGI).
A Câmara de Deputados destacou que a avaliação contou com “16 organismos que emitiram seus pareceres setoriais” e a participação da Fundação da Universidade Nacional de Cuyo.

O projeto também incluiu uma Declaração de Impacto Ambiental, com controles estruturados sobre cinco eixos:
- água;
- biodiversidade;
- patrimônio cultural e Qhapaq Ñan;
- ar e emissões, e;
- participação cidadã.
O debate polarizado em torno da mineração em Mendoza
Na Câmara Baixa provincial, o deputado Guillermo Mosso (PRO Liberdade) defendeu a iniciativa: “estamos falando de um projeto ajustado às exigências desta Lei, mas também a toda a legislação ambiental e procedimental que a província possui”.
Mosso acrescentou que “dos pareceres técnicos surge este projeto, não gera afetação do recurso hídrico“, segundo consignou a Câmara de Deputados.
Em contraste, o deputado José Luis Ramón (CyC) antecipou seu voto negativo: “a água não é suficiente para este processo”. Questionou que as DIAs “são um manual de omissões, irregularidades, de informação incompleta”.
A deputada Valentina Morán (PJ) afirmou que “este debate que se gerou em torno de San Jorge não é um debate por mineração sim ou mineração não”, mas “sobre como, quando, sob quais regras, com que controles, e a serviço de quem“.
No dia seguinte à aprovação, a ministra Latorre respondeu às críticas na Rádio Post. A funcionária explicou que, sobre os diques de rejeitos, são exigidas medidas de máxima proteção.
Segundo Latorre, os depósitos incluem “um sistema de drenagem permanente sob o depósito”, “uma geomembrana de impermeabilização artificial” e “sensores com monitoramento constante em tempo real“.
No entanto, sobre a possível conectividade entre aquíferos e o Rio Mendoza, a funcionária admitiu que não existem estudos conclusivos.
Apesar dessa falta de informação, Latorre afirmou que “os cuidados de prevenção exigidos hoje são os de máxima, como se a conectividade já estivesse comprovada”.
A aprovação de San Jorge e o Fundo de Compensação Ambiental marcam um ponto de inflexão para a mineração em Mendoza.
O desenvolvimento foi habilitado com controles reforçados, mas a contradição entre impulsionar a atividade e se preparar para seus possíveis impactos mantém o debate aberto.



