México: escola rural é fechada devido à exposição a pesticidas e denunciam avanço do monocultivo de batata.

As salas de aula da escola primária Adolfo López Mateos, na comunidade de El Naranjo, município de Tlalnelhuayocan (México), permanecem vazias desde junho de 2024. O encerramento foi provocado pelo abandono dos alunos e do corpo docente, que apresentaram problemas de saúde que, de acordo com relatos locais, estariam relacionados com a exposição a pesticidas sintéticos utilizados intensivamente nos cultivos de batata localizados a poucos metros da instituição.

Fundada há três décadas, a escola ficou cercada por terras alugadas a produtores de batata desde 2010. Embora o regulamento municipal aprovado em março de 2024 proíba o utilização de substâncias tóxicas em cultivos próximos a espaços públicos como escolas, a situação local evidencia que as práticas de agroquímicos persistem.

Sintomas, denúncias e substâncias tóxicas

Entre 2022 e 2024, a bióloga Linda Marín, pesquisadora da Universidade Veracruzana, documentou o uso de pelo menos 16 pesticidas nos campos que cercam a escola.

A lista inclui fungicidas, herbicidas, nematicidas, rodenticidas e pesticidas classificados como altamente tóxicos, alguns deles proibidos por convenções internacionais como as de Estocolmo e Roterdã, ratificadas pelo México.

Durante sua investigação, Marín coletou relatos de mães cujos filhos apresentaram:

  • Vômitos
  • Tonturas
  • Falta de apetite
  • Urticária
  • Fadiga e dificuldade de concentração

Também foram detectados sintomas semelhantes nas duas professoras da escola, que davam aulas sem voz e relatavam doenças respiratórias frequentes. A situação piorou em agosto, quando foram utilizados metamidofos e fosfeto de alumínio, compostos altamente nocivos que foram proibidos em outros países da região.

pesticidas
O uso de pesticidas e uma situação preocupante no México

Bosque de neblina sob pressão agrícola

A escola está localizada em uma área florestal a 1600 metros acima do nível do mar, no terceiro estado mais populoso do México. Ali começa a floresta mesófila de montanha, considerada a última região tropical antes do planalto mexicano.

Este ecossistema faz parte do Arquipélago de Florestas e Selvas da Região Capital de Veracruz, área natural protegida desde 2015, com 5880 hectares de floresta de neblina e serviços ambientais estratégicos.

Entre 2010 e 2023, a área dedicada ao cultivo de batata em Tlalnelhuayocan cresceu de 10 para 79 hectares, de acordo com dados do Sistema de Informação Agroalimentar (SIACON). O avanço do monocultivo com agroquímicos tem sido replicado em outros municípios:

  • Xico: de 20 a 140 hectares
  • Ayahualulco: de 530 a 597
  • Jalacingo: de 649 a 1035

Em locais como Coatepec e na comunidade de Cinco Palos, o impacto paisagístico e ambiental tem sido notável.

Ordenamento ecológico e vácuo institucional

Diante do aumento de cultivos em áreas de alto valor ecológico, a organização SENDAS, juntamente com o Centro Mexicano de Direito Ambiental (CEMDA), o Instituto de Ecologia A.C. e a Secretaria de Meio Ambiente de Veracruz, impulsionaram um Programa de Ordenamento Ecológico Regional. Este documento, de caráter obrigatório, regula o uso de agrotóxicos a menos de 500 metros de residências, corpos hídricos e áreas sensíveis.

No entanto, as comunidades denunciam falta de cumprimento, ausência de fiscalização municipal e omissão de resultados sanitários. A Secretaria de Saúde afirma ter realizado “verificações sanitárias na região” nos últimos dez anos, mas não divulgou suas conclusões nem vinculou os impactos com a agricultura intensiva.

As vozes do território

Segundo a ONG SENDAS, os produtores migraram para a floresta de neblina a partir de áreas do planalto esgotadas por décadas de cultivo. O pesquisador Jordi Vera, do Coletivo Territórios Livres de Agrotóxicos, coletou relatos de agricultores que buscam rendimento em novas terras, onde replicam práticas agrícolas com alto uso de pesticidas.

Em abril de 2024, SENDAS e Ánima Mundi se reuniram com o legislador Adrián Naveda, que representa a região na Câmara dos Deputados. As organizações entregaram estudos de impacto e solicitaram uma intervenção articulada dos setores de saúde, meio ambiente e educação.

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