Retrocessos verdes: o freio ambiental na América do Sul oscilando entre avanços históricos e retrocessos perigosos

Durante as últimas décadas, a América Latina foi protagonista de avanços inéditos em proteção ambiental. Entre eles, a inclusão dos direitos da natureza na Constituição do Equador em 2008 e a assinatura do Acordo de Escazú em 2021, que garante transparência e protege os defensores do ambiente.

No entanto, o panorama começou a mudar. Sob a influência de correntes políticas negacionistas, vários países impulsionaram reformas que enfraquecem as normativas ambientais e abrem caminho para práticas extrativistas sem controle.

Desde o Equador até o Brasil, os governos promovem medidas que priorizam interesses privados em detrimento do cuidado dos ecossistemas. Entre elas, a privatização de áreas protegidas, a flexibilização de licenças ambientais e o enfraquecimento da participação cidadã em decisões-chave.

Em muitos casos, avança-se sem respeitar os marcos constitucionais, colocando em risco direitos coletivos e territórios indígenas. Enquanto isso, os movimentos ambientalistas alertam sobre as consequências deste retrocesso normativo.

![Proteção ambiental](https://storage.googleapis.com/media-cloud-na/2025/06/derogar-la-proteccion-ambiental-300×300.jpg.webp)

## Privilegiando a extração, natureza em perigo

Um dos casos mais preocupantes é o do Equador. Lá se propõe abrir áreas protegidas para investimento privado sob o argumento de melhorar a segurança e combater crimes ambientais. No entanto, a medida permite concessões que podem se transformar em instrumentos de desapropriação de terras, muitas delas indígenas e sem títulos formais.

No Peru, as modificações legais favorecem a mudança de uso do solo e enfraquecem a fiscalização ambiental. Novas figuras jurídicas permitem emitir licenças rapidamente para projetos sem os controles tradicionais, incentivando o desmatamento e o tráfico de terras.

Por sua vez, o Brasil acabou de aprovar uma lei que permite às empresas autodeclarar o impacto de seus projetos e obter licenças digitais sem revisão técnica. A norma, questionada por organizações e setores judiciais, pode gerar insegurança jurídica e dificultar futuros investimentos.

Essas políticas, além de prejudicar a imagem internacional dos países, reforçam modelos extrativistas obsoletos, que agravam a crise climática global e reproduzem desigualdades.

![Proteção ambiental](https://storage.googleapis.com/media-cloud-na/2025/06/proteccion-ambiental-300×169.jpg.webp)

## Deficiências estruturais na legislação ambiental

Apesar dos avanços formais, a região enfrenta profundas fragilidades em matéria ambiental. Muitas leis são ambíguas, aplicadas de forma irregular ou estão sujeitas a interesses políticos.

Em grande parte da América do Sul, os marcos regulatórios permitem a modificação do uso do solo com facilidade, favorecendo a expansão agrícola ou mineradora. A vigilância estatal é limitada e as comunidades, especialmente indígenas, enfrentam obstáculos para participar dos processos de decisão.

Outra grande deficiência é a falta de implementação de mecanismos de consulta prévia, livre e informada, exigidos por normas internacionais. Isso abre espaço para conflitos socioambientais e enfraquece o Estado de direito.

Paralelamente, a criminalização de ativistas ambientais e a violência contra defensores do território são constantes. A América Latina continua sendo a região mais perigosa para aqueles que protegem a natureza.

## Novas ideias para um desenvolvimento sustentável

Diante desse cenário, surgem propostas que buscam substituir o modelo extrativista por um mais harmônico com a natureza. A bioeconomia é um dos conceitos que mais força está ganhando.

Esta alternativa propõe o aproveitamento sustentável dos recursos biológicos, integrando tecnologia, agroecologia e economias cooperativas. O Brasil já possui uma estratégia nacional e o G20 adotou princípios para promovê-la globalmente.

Embora a transição não seja fácil, a bioeconomia representa uma saída possível para regiões como a Amazônia, onde se entrelaçam riqueza natural e vulnerabilidade social.

O caminho para um futuro ecológico requer vontade política, participação cidadã, educação ambiental e justiça para os territórios e comunidades. A resistência social e a ação judicial continuam sendo barreiras-chave diante do retrocesso.

A região enfrenta uma encruzilhada: persistir em práticas destrutivas ou apostar em um modelo que valorize a vida, a diversidade e o equilíbrio com a Terra.

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