A intendente do Parque Nacional Lanín, Ana María de las Nieves Aquín, enviou uma intimação ao município de San Martín de los Andes denunciando a “extrema gravidade ambiental e institucional” derivada do funcionamento deficitário do sistema de esgoto. O aviso concede 72 horas para apresentar relatórios técnicos e planos de contingência, indicando que os despejos de efluentes não tratados nos riachos Pocahullo e Calbuco afetam diretamente a qualidade da água do lago Lácar, um ecossistema protegido por leis nacionais.
Antecedentes e reclamações dos moradores
A problemática se tornou visível quando os moradores solicitaram informações sobre o estado das estações de tratamento no âmbito do Plano de Ordenamento Territorial. A Cooperativa de Água Potável reconheceu um déficit estrutural e admitiu que as ampliações previstas em 2008 e 2018 nunca foram executadas.
Marcela Mariña, vice-presidente da cooperativa, confirmou que as estações precisam de investimento urgente. Por sua vez, o Defensor do Povo e do Meio Ambiente, Fernando Bravo, alertou sobre o risco sanitário, especialmente na temporada de verão, e reclamou uma revisão tarifária para garantir insumos básicos.
Incidentes recentes
A preocupação é reforçada por antecedentes críticos:
- Dezembro 2024: rompimento na estação PTEC-1 obrigou a ativar um bypass que derivou líquidos parcialmente tratados para o lago, fechando o acesso costeiro.
- Setembro 2025: outro rompimento em uma tubulação principal provocou despejos no riacho Pocahullo e o fechamento preventivo da praia central.
Em ambos os casos, o Parque Lanín solicitou informações técnicas que nunca foram respondidas pelo município nem pelo Órgão de Controle Municipal (OCM).

Impacto ambiental e legal
Aquín advertiu que a continuidade dos despejos de efluentes não tratados gera efeitos acumulativos e irreversíveis no ecossistema. Enfatizou que o planejamento urbano não pode ser dissociado da capacidade real da infraestrutura sanitária, lembrando os Princípios Preventivo e Precautório da Lei Geral do Meio Ambiente Nº 25.675.
Moradores como Valeria López Oronoz questionam que o município promova planos de crescimento urbano quando o sistema de esgoto já opera no limite. “Em San Martín já nos acostumamos a que o verão comece com a praia fechada por líquidos de esgoto”, afirmou, destacando o impacto em uma cidade que vive do turismo.
Resposta institucional e financiamento
Em 2025, o governador Rolando Figueroa e o prefeito Carlos Saloniti assinaram um convênio para executar obras de tratamento de lodos de esgoto, com financiamento compartilhado entre província e município. No entanto, o acordo ficou fora do orçamento após a dissolução do Enohsa.
Aquín agora exigiu um cronograma definitivo de obras, com prazos, fontes de financiamento e responsáveis institucionais.
Reação social
A ONG Amigos de la Patagonia qualificou a liberação de líquidos de esgoto no lago como um “delírio”, sublinhando o impacto negativo em um recurso vital para o ecossistema e a economia turística regional.
O déficit de esgoto em San Martín de los Andes expõe uma crise ambiental e sanitária que ameaça o lago Lácar, patrimônio natural e motor turístico da região.
A falta de investimento estrutural, somada à passividade institucional, transforma a situação em um caso exemplar sobre a necessidade de articular políticas de saneamento, planejamento urbano responsável e proteção ambiental efetiva.



