Santa Fe estreia Constituição com enfoque ambiental: avanços normativos e desafios urgentes

Depois de 63 anos, a província de Santa Fe conta com uma nova Constituição, aprovada pela Convenção Reformadora.

A última reforma havia sido em 1962, e o novo texto busca atualizar-se frente aos desafios contemporâneos, incluindo direitos humanos, tecnologia e proteção ambiental.

Direitos ambientais consagrados na nova Constituição de Santa Fe

O capítulo ambiental introduz princípios-chave: o direito de toda pessoa a viver em um ambiente saudável e equilibrado, o acesso universal à água potável e segura, e a obrigação estatal de impulsionar políticas de mitigação e adaptação às mudanças climáticas.

Também se garante a preservação de áreas úmidas, florestas e biodiversidade, e se incorpora o princípio intergeracional, assegurando que as decisões ambientais contemplem os direitos das gerações futuras.

Um contexto crítico: resíduos industriais e lixões sem controle

A Argentina gera 25 milhões de toneladas de resíduos industriais por ano, mas apenas 4% recebe tratamento adequado.

A reforma ocorre em um cenário preocupante. Em Santa Fe, o aterro sanitário da capital está próximo de seu limite e deveria ser substituído até 2027.

A nível nacional, existem mais de 5.000 lixões a céu aberto, e segundo um relatório dos Observatórios de Resíduos Perigosos da UNR e da UBA, 96% dos resíduos industriais são descartados sem controle, agravando a contaminação do solo e da água.

Constitución Santa Fe
Lixões na província de Santa Fe

Reivindicações do setor ambiental e empresarial

Desde Catries e Caitpa, câmaras que agrupam tratadores e transportadores de resíduos industriais, celebram a reforma constitucional, mas alertam que os princípios devem se traduzir em políticas concretas.

“O descarte ilegal de resíduos perigosos atenta contra o direito ao ambiente saudável”, afirmou Claudia Kalinec, presidente da Catries. Apenas 9,22% das indústrias trataram seus resíduos corretamente no último ano.

“É necessário um sistema de infrações e multas mais caro que o tratamento, para que as empresas não continuem optando por poluir”, acrescentou Kalinec.

Gestão metropolitana e coordenação interjurisdicional

Para os especialistas, esse contexto abre uma oportunidade para estabelecer políticas regionais de gestão de resíduos, com coordenação entre municípios, província e Nação.

A nova Constituição deveria estabelecer diretrizes claras para uma gestão integrada, evitando soluções fragmentadas ou de curto prazo.

Circuitos informais e resíduos perigosos sem rastreabilidade

Milhares de indústrias operam fora do marco legal, gerando contaminação silenciosa.

Segundo estimativas de Catries e Caitpa, uma parte significativa dos geradores industriais não está registrada ou não cumpre com os requisitos de rastreabilidade.

Isso implica que resíduos como lodos de curtumes, solventes, agroquímicos e metais pesados acabam em lixões informais ou misturados com resíduos domiciliares, sem controle nem tratamento.

Da norma à ação: o compromisso com as gerações futuras

A Constituição marca um rumo, mas a chave está na implementação.

“Sem controle real, continuaremos com os mesmos problemas de contaminação que hoje denunciamos”, concluiu Gustavo Solari, presidente da Caitpa.

A reforma constitucional de Santa Fe representa um avanço histórico, mas seu impacto dependerá da vontade política, da fiscalização efetiva e da articulação territorial. Só assim será possível garantir o direito a um ambiente saudável e proteger os ecossistemas para as gerações que virão.

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