A Organização das Nações Unidas (ONU) atravessa atualmente uma crise financeira sem precedentes, a qual ameaça a continuidade operacional do organismo internacional.
É que, segundo alertou o organismo internacional, poderia ficar sem fundos em julho de 2026 se os países membros não pagarem suas quotas anuais pendentes.
Na última quinta-feira, o secretário-geral António Guterres enviou uma carta aos embaixadores dos 196 países membros advertindo sobre o “colapso financeiro iminente”.
Trata-se de uma crise financeira inédita para a ONU, já que isso nunca ocorreu na história do organismo.
“A crise está se agravando, ameaçando a execução dos programas e arriscando o colapso financeiro“, escreveu Guterres na missiva.
“Não posso exagerar a urgência da situação que enfrentamos agora”, acrescentou o funcionário.

Estados Unidos concentra 95% da dívida
Estados Unidos é responsável por cerca de 95% do dinheiro devido às Nações Unidas, cerca de 2200 milhões de dólares.
Esse montante combina as quotas anuais correspondentes a 2025, que não foram pagas, e as de 2026.
Isso ocorre em razão das políticas do presidente norte-americano, Donald Trump, um opositor aberto à ONU e aos organismos internacionais em geral, os quais considera pouco úteis para os interesses de seu país.
Devido a essa percepção, o dirigente retirou os Estados Unidos de diversos organismos e acordos globais, incluindo o Acordo de Paris contra a mudança climática.
Isso coloca a ONU como uma das primeiras vítimas da “motosserra” de Trump e gera uma profunda crise financeira na entidade, dado que os EUA sempre foram um dos maiores contribuintes.
Altos funcionários do organismo disseram que, se os fundos se esgotarem, seriam obrigados a fechar a sede emblemática de Nova York até agosto.
O Conselho de Segurança, responsável pela manutenção da paz internacional, realiza suas reuniões nesta sede.
A crise financeira da ONU também obrigaria a cancelar a reunião anual da Assembleia Geral de líderes mundiais em setembro.

Além disso, fecharia o Escritório de Coordenação de Assuntos Humanitários, que responde a emergências como conflitos e catástrofes naturais.
Embora agências como UNICEF, a Agência para os Refugiados e o Programa Mundial de Alimentos contem com orçamentos independentes e continuariam funcionando, a ONU; que coordena o trabalho de todas estas, fecharia suas portas diante da crise financeira.
As causas estruturais da crise financeira da ONU
As dificuldades financeiras do organismo devem-se principalmente a dois fatores. Primeiro, uma crise de liquidez provocada por países membros que não pagam suas quotas ou o fazem com atraso.
Segundo, uma norma financeira vigente desde 1945 que estabelece que, se a organização não gastar todo o orçamento, deve devolver o dinheiro aos integrantes. Esta regra aplica-se mesmo quando a falta de gasto se deve ao não pagamento de quotas.
“Deixa a organização exposta a um risco financeiro estrutural“, escreveu Guterres sobre esta norma.
Frente à crise financeira, o secretário-geral instou os países membros a pagar suas quotas da ONU e reformar esta regra obsoleta.
Em 30 de dezembro, a Assembleia Geral autorizou 3450 milhões de dólares para o orçamento de 2026. Este orçamento cobre paz e segurança, desenvolvimento sustentável e direitos humanos.

O impacto nas operações humanitárias e de paz
A crise financeira da ONU e uma eventual paralisia afetaria diretamente o trabalho humanitário mundial se o organismo fechasse em julho.
Frente a esta situação, as missões de manutenção da paz receberam instruções de reduzir seus orçamentos em 15 por cento.
Entre os principais devedores, Venezuela tem o segundo maior montante de quotas sem pagar, 38 milhões de dólares correspondentes a 2025, e perdeu seu direito ao voto.
Por sua vez, México ocupa o terceiro lugar com uma dívida de 20 milhões de dólares para 2025.
“Quando se trata de pagar, é agora ou nunca”, disse Farhan Haq, porta-voz das Nações Unidas.
“Não contamos com o tipo de reservas de caixa necessárias para continuar funcionando“, acrescentou o porta-voz.
Além das quotas anuais, os Estados Unidos devem cerca de 1900 milhões de dólares por missões ativas de manutenção da paz.
Também deve 528 milhões por missões encerradas e 43,6 milhões por tribunais internacionais.
O presidente Donald Trump retirou os Estados Unidos de dezenas de organizações internacionais em janeiro, alegando má gestão e desperdício.
Trump afirmou que o país reduziria o financiamento das operações de manutenção da paz do organismo mundial.



