Uma equipe de pesquisadores da Universidade Nacional do Nordeste (UNNE) desenvolveu um protótipo de tijolos ecológicos resistentes, feitos com base em plástico PET reciclado.
Eles serão destinados à construção de moradias no nordeste da Argentina. O desenvolvimento é especialmente relevante devido ao fato de que, atualmente, apenas 30% desse material consumido na Argentina é reciclado.
Tijolos ecológicos resistentes à base de PET: como foi a pesquisa
A arquiteta Lucía Villalba liderou a inovadora pesquisa que começou durante seu pré-graduação com uma bolsa da Secretaria Geral de Ciência e Técnica da casa de estudos. O projeto avaliou a viabilidade de transformar resíduos plásticos de tereftalato de polietileno (PET) em insumos sustentáveis para a fabricação de tijolos destinados à construção de moradias no nordeste da Argentina.

Junto com a doutora Herminia Alías, professora e pesquisadora do Instituto para o Desenvolvimento da Eficiência Energética em Arquitetura (IDEEA) da FAU-UNNE, e o engenheiro Pablo Martina, pesquisador do Grupo de Energias Renováveis (GIDER) da FI-UNNE, formaram uma equipe multidisciplinar que aprofundou nessa linha de pesquisa.
Realizaram estudos de casos, visitas a pontos de coleta de PET em Resistencia, Chaco, e sistematizaram propriedades e benefícios do uso do resíduo na construção.
O problema da contaminação por resíduos plásticos na Argentina e na região
Cada habitante do país produz aproximadamente 1,15 kg de resíduos sólidos urbanos diariamente. Isso, no total, gera uma tonelada de lixo a cada dois segundos.
Apenas 30% do plástico PET consumido na Argentina é reciclado. O restante, com um tempo de decomposição superior a 100 anos, contamina o meio ambiente e contribui para a problemática do plástico nos ecossistemas.
Na Área Metropolitana do Grande Resistencia (AMGR), que abriga mais de 385.000 pessoas, são culpadas cerca de 9000 toneladas de resíduos municipais mensalmente. No entanto, apenas 1,13% do plástico gerado na região é reciclado efetivamente.

Diante dessa realidade, os pesquisadores propõem reutilizar o PET, um resíduo altamente abundante e reciclável, para criar componentes construtivos sustentáveis e ecológicos.
Reutilização do PET na construção: uma solução ambiental e tecnológica
A pesquisa concluiu que, o reuso e reciclagem do PET na fabricação de tijolos modulares para moradias é uma opção viável. Oferece múltiplos benefícios ambientais ao reduzir os resíduos que acabam em aterros sanitários ou poluindo o entorno.
Os estudos de campo incluíram visitas a pontos de coleta, como “Inplástico”, que processa 100 toneladas mensais; “Sembrando Conciencia”, que coleta uma tonelada de PET mensalmente; e “Ecoqiru”, empresa do Chaco que produz “madeiras plásticas” e coletou mais de 2 toneladas de PET.
No laboratório, sem maquinário industrial, a equipe triturou manualmente as garrafas de PET, cortando-as em pequenos quadrados de aproximadamente 5 milímetros. Com esse material, desenvolveram três protótipos de tijolos com diferentes porcentagens de PET e misturas:
- Protótipo 1 (P1): 350 g de cimento + 700 g de areia + 30 g de PET (3%)
- Protótipo 2 (P2): similar ao P1, mas com 10% de PET
- Protótipo 3 (P3): mistura de terra e PET (10%), sem cimento
- Resultados dos ensaios de resistência e propriedades térmicas
Os protótipos com cimento (P1 e P2) demonstraram excelentes resultados, alcançando resistências de 8,60 MPa e 9,46 MPa, superando amplamente os 5 MPa dos tijolos cerâmicos tradicionais. Isso indica que poderiam ser utilizados em elementos estruturais e fechamentos portantes.
O tijolo com terra em vez de cimento apresentou uma resistência muito baixa (1,59 MPa), sendo descartado para uso estrutural.
Quanto às propriedades térmicas, os resultados mostraram que os tijolos com 10% de PET tinham uma condutividade térmica de 1,032 W/mK, ligeiramente superior aos tijolos cerâmicos (0,81 W/mK). No entanto, estudos anteriores destacam que os tijolos com 50% de PET alcançam valores de condutividade muito menores (0,15 W/mK), o que os torna excelentes isolantes térmicos.
Desafios e próximos passos no desenvolvimento de tijolos reutilizáveis com PET
O principal obstáculo foi a falta de maquinário industrial para triturar o PET em maiores porcentagens, limitando assim a quantidade de plástico nos protótipos. No entanto, os pesquisadores enfatizam que existem precedentes nacionais e internacionais com porcentagens de PET superiores a 30%.
Apesar dessa limitação, já estão planejando os próximos passos: considerar a reutilização de outros plásticos descartados, testar dosagens superiores e explorar outros formatos de elementos construtivos modulares que possam ser aplicados em diferentes componentes dos edifícios.



