A Amazônia é o “pulmão do planeta”? O mito científico que afirma que produz 20% do oxigênio global

Durante décadas hemos escuchado que Amazônia é o “pulmão do planeta” e produz 20% do oxigênio da Terra.

No entanto, os cientistas desmentem essa crença popular: a contribuição líquida da Amazônia para o oxigênio que respiramos é praticamente zero.

A Amazônia é o “pulmão do planeta”? O erro por trás do mito

“Há várias razões pelas quais alguém gostaria de manter a Amazônia em seu lugar, e o oxigênio não é uma delas“, aponta Michael Coe, cientista de sistemas terrestres do Centro de Pesquisa Woods Hole em Massachusetts.

Para Coe, a afirmação “simplesmente não faz nenhum sentido físico“.

Isso se deve ao fato de não haver dióxido de carbono suficiente na atmosfera para que as árvores produzam um quinto do oxigênio do planeta por meio da fotossíntese.

A lógica é simples: para cada molécula de dióxido de carbono que as árvores extraem do ar, liberam uma quantidade comparável de moléculas de oxigênio.

Como a atmosfera contém menos de meio por cento de dióxido de carbono, mas 21% de oxigênio, é impossível que a Amazônia seja o “pulmão do planeta”.

Quanto oxigênio a Amazônia realmente produz

Para confirmar isso, Yadvinder Malhi, ecólogo de ecossistemas da Universidade de Oxford, realizou cálculos mais precisos baseados em um estudo de 2010.

Lá, ele descobriu que as florestas tropicais são responsáveis por cerca de 34% da fotossíntese terrestre.

Assim, considerando seu tamanho, a Amazônia representaria aproximadamente metade dessa quantidade.

Ou seja, gera cerca de 16% do oxigênio produzido em terra.

No entanto, essa porcentagem se reduz a 9% quando se inclui o oxigênio produzido pelo fitoplâncton no oceano.

O cientista climático Jonathan Foley, do Projeto Drawdown, chegou a uma estimativa ainda mais conservadora de 6%.

É que as árvores não apenas exalam oxigênio, mas também o consomem.

Elas fazem isso por meio da respiração celular, um processo onde convertem açúcares em energia utilizando oxigênio.

Então, durante a noite, quando não há sol para a fotossíntese, absorvem oxigênio.

Em particular, a equipe de Malhi estima que as árvores inalam pouco mais da metade do oxigênio que produzem.

O restante é consumido pelos inúmeros micróbios que vivem na Amazônia, que inalam oxigênio para decompor a matéria orgânica morta da floresta.

“O efeito líquido [de oxigênio] da Amazônia, ou na verdade de qualquer outro bioma, é aproximadamente zero”, assegura Malhi.

Então, de onde vem o oxigênio que respiramos?

O oxigênio que respiramos é o legado do fitoplâncton oceânico que durante bilhões de anos acumulou oxigênio de maneira constante.

Assim explica Scott Denning, cientista atmosférico da Universidade Estadual do Colorado.

Esse oxigênio só pôde se acumular porque o plâncton ficou preso no fundo do oceano antes de se decompor.

Apesar disso, embora não seja o pulmão do planeta, a Amazônia contribui significativamente para a extração de toneladas de dióxido de carbono da atmosfera.

Coe a compara com um ar condicionado gigante que resfria o planeta.

“Pouquíssimas pessoas falam de biodiversidade, mas a Amazônia é o ecossistema terrestre com maior biodiversidade, e a mudança climática e o desmatamento estão colocando em risco essa riqueza”, indica Carlos Nobre, cientista climático do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo.

Além disso, a Amazônia não será “o pulmão do planeta”, mas tem funções muito mais relevantes.

É que também estabiliza os ciclos de chuva na América do Sul e é um lar crucial para povos indígenas e inúmeras espécies animais e vegetais.

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