A Cidade de Buenos Aires já esteve rodeada por paisagens muito distintas das atuais. Antes do crescimento urbano, a região combinava pastagens pampeanas, florestas de tala sobre as barrancas e vegetação associada ao Delta do Paraná, formando ecossistemas ricos em biodiversidade.
No entanto, menos de dois séculos de urbanização modificaram profundamente esse equilíbrio natural. A expansão de edifícios, avenidas e espécies vegetais exóticas provocou o desaparecimento de ambientes chave para insetos, aves e pequenos mamíferos.
Atualmente, especialistas em biodiversidade alertam que a perda de borboletas se tornou um sinal visível do deterioro ecológico que afetou a Buenos Aires e sua área metropolitana.

Uma cidade onde conviviam várias ecorregiões
De acordo com pesquisadores e naturalistas, a Cidade de Buenos Aires está localizada em um ponto onde convergem distintas ecorregiões argentinas. Por um lado, aparece a planície pampeana; além disso, existiam antigos talares sobre as barrancas e, ao norte, chegava a influência do Delta do Paraná.
Esses ambientes permitiam o desenvolvimento de uma enorme variedade de plantas nativas, adaptadas naturalmente ao clima e ao solo da região. Graças a essa flora prosperavam borboletas, aves, polinizadores e outras espécies essenciais para o funcionamento dos ecossistemas.
No entanto, grande parte desses ambientes desapareceu antes mesmo de ser reconhecida ou valorizada. A derrubada de florestas para obter lenha e a incorporação maciça de árvores exóticas modificaram completamente a paisagem original.
Por sua vez, o imaginário urbano também contribuiu para o problema. Durante décadas, instalou-se a ideia de que Buenos Aires era uma planície vazia e sem vegetação, invisibilizando a riqueza biológica que existia na região.
O efeito borboleta e a perda de plantas nativas
O desaparecimento de borboletas urbanas se tornou uma das consequências mais evidentes da degradação ambiental. Segundo especialistas, esses insetos dependem diretamente das plantas nativas para se reproduzirem e completarem seu ciclo de vida.
Antigamente, numerosos terrenos baldios conservavam vegetação espontânea própria da região. Ali cresciam espécies utilizadas pelas borboletas para depositar seus ovos e alimentar suas larvas.
Com o avanço do cimento e a substituição da flora autóctone por espécies ornamentais importadas, esses refúgios naturais desapareceram progressivamente. Como resultado, muitas borboletas deixaram de ser vistas em praças, jardins e calçadas portenhas.
Além disso, o predomínio de árvores exóticas agravou a situação. Atualmente, a maior parte do arborizado urbano de Buenos Aires é composta por espécies provenientes de outros continentes, que oferecem menos alimento e refúgio para a fauna local.

Quais fatores levaram Buenos Aires a ficar sem borboletas?
Os especialistas concordam que a perda de borboletas responde a múltiplas causas acumuladas durante décadas. Entre as principais está a destruição de habitats naturais pelo crescimento urbano e a redução de espaços verdes biodiversos.
Além disso, o uso maciço de plantas exóticas alterou as relações ecológicas construídas durante milhares de anos entre flora e insetos locais. Muitas borboletas só podem se reproduzir em determinadas espécies vegetais nativas.
Outro fator importante foi a fragmentação ambiental. A construção de avenidas, bairros e grandes infraestruturas isolou pequenos setores verdes, dificultando o deslocamento e a sobrevivência de numerosas espécies.
Além disso, a poluição, o uso de pesticidas e a falta de corredores biológicos reduziram ainda mais as possibilidades de recuperação. Frente a este cenário, universidades, viveiros e organizações ambientais impulsionam projetos para restaurar vegetação nativa em praças, calçadas e margens ferroviárias.
Em paralelo, cresce o interesse pelos jardins biodiversos e os biocorredores urbanos. Estas iniciativas buscam reconectar fragmentos naturais dentro da Cidade e favorecer novamente a presença de borboletas, aves e polinizadores em Buenos Aires.



