No mês passado, foi iniciado o primeiro rastreamento de baleias jubarte por meio de tecnologia satelital realizado na Argentina.
Em particular, a operação foi realizada no Parque Provincial Patagonia Azul, em Chubut.
Lá, três exemplares foram marcados com dispositivos de rastreamento, os quais permitirão revelar suas rotas migratórias e zonas de alimentação.
A iniciativa representa um avanço significativo para a ciência marinha argentina. É que, embora o rastreamento satelital de cetáceos tenha antecedentes na região, esta temporada marcou um ponto de inflexão inédito.
“É a primeira vez que se marcam baleias jubarte no país”, confirmou nesse sentido Lucas Beltramino, biólogo do Projeto Patagonia Azul de Rewilding Argentina.

Cinco anos de preparação
O rastreamento de baleias jubarte culminou um processo de pesquisa de cinco anos. É que, antes de poder marcar os exemplares, os cientistas vinham utilizando a fotoidentificação desde 2021 no Parque Patagonia Azul.
Na época, a equipe tirou fotos particularmente da cauda de cada baleia, cujo perfil rugoso e manchas geram padrões únicos.
Isso permite identificar cada indivíduo, similar ao que ocorre com a impressão digital humana.
Graças a isso, foi possível observar os indivíduos consumindo lagostas e cardumes de anchovas durante a primavera e o verão, registrando assim suas técnicas de alimentação.
Além disso, a técnica também permitiu detectar indivíduos que retornavam temporada após temporada, inclusive alguns reportados no Brasil ou na Antártida.
Essas imagens foram carregadas em um banco internacional de dados e forneceram informações sobre 14 indivíduos que nunca antes haviam sido registrados.
Agora, a equipe do Projeto Patagonia Azul pôde dar um passo a mais no rastreamento de baleias jubarte ao marcar esses três exemplares para seu monitoramento satelital.
Com essa técnica, os pesquisadores poderão responder onde estão as baleias quando não estão em Chubut, por onde viajam e quais desafios enfrentam durante suas travessias oceânicas.
“Identificar, monitorar e rastrear cada indivíduo nos permite conhecer mais sobre a abundância e os padrões migratórios da baleia jubarte na região, e então desenvolver estratégias para ajudar a conservá-la“, destacou Beltramino.
A operação de precisão para o rastreamento de baleias
A campanha foi realizada com pesquisadores da Universidade de Santa Cruz da Califórnia, Estados Unidos.
A operação requer aproximar-se a cerca de cinco metros do animal para colocar o dispositivo por meio de um rifle pneumático.

O dispositivo é inserido na camada de gordura, que supera os 20 centímetros de espessura. Graças a isso, quando a baleia sai para respirar, a antena envia a localização com uma margem de erro de apenas centenas de metros.
“Durante todo esse tempo obtemos informações muito valiosas sobre as áreas de uso, onde se alimentam e por quanto tempo”, detalhou o especialista.
Depois, o corpo da baleia expulsa naturalmente o dispositivo após semanas ou meses.
Os reveladores resultados do rastreamento de baleias
Dois dos três indivíduos instrumentados mostraram permanência em áreas que se sobrepõem com o Parque Patagonia Azul.
No entanto, grande parte do tempo circulam fora dos limites formais da área protegida.
O terceiro exemplar se deslocou para Rocas Coloradas, ao norte de Comodoro Rivadavia.
“Esse comportamento destaca a importância de gerar corredores protegidos entre áreas marinhas protegidas”, analisa Beltramino.
Os dados preliminares indicam que as baleias permanecem longos períodos se alimentando em áreas relativamente pequenas, de cerca de 300 quilômetros quadrados.

Ameaças e conservação
Ao sair das zonas de proteção, as baleias jubarte enfrentam ameaças como colisões com embarcações, competição com a pesca industrial e poluição acústica.
“Conhecer as áreas de uso e o tempo de permanência pode nos ajudar a detectar os locais prioritários a proteger”, destacou o biólogo.
A presença desses cetáceos aporta nutrientes ao ecossistema e beneficia a alimentação das aves marinhas.
As baleias jubarte escolhem essas águas para se alimentarem intensamente, economizar energia e evitar migrações desnecessárias antes de voltar às áreas reprodutivas.
“Com mais energia vai melhorar o sucesso reprodutivo para essa população, e isso é muito encorajador”, concluiu Beltramino. Com o passar do tempo, espera-se o aparecimento de mais exemplares pela região.
Dados chave do projeto:
- Primeira vez que se colocam dispositivos de rastreamento em baleias jubarte na Argentina
- Três exemplares instrumentados no Parque Provincial Patagonia Azul
- Cinco anos de fotoidentificação precederam o marcado satelital
- Os dispositivos funcionam com satélites de órbita baixa
- As baleias permanecem em áreas de aproximadamente 300 quilômetros quadrados



