Os golfinhos do rio Amazonas (Inia geoffrensis), conhecidos como botos, deixaram os cientistas perplexos ao exibir um comportamento incomum: lançar jatos de xixi fora da água.
Durante mais de 200 horas de observação no Brasil, um grupo de pesquisadores documentou essa prática, na qual os machos expulsam urina que alcança até um metro de altura, atraíndo a atenção de outros golfinhos que a seguem com o focinho ou aguardam que caia na água.
Embora os motivos por trás desse comportamento ainda não estejam claros, especula-se que pode se tratar de um método de comunicação social. As descobertas foram publicadas em Behavioural Processes, gerando novas linhas de pesquisa.
Xixi como linguagem social
Claryana Araújo-Wang e sua equipe do Grupo de Pesquisa CetAsia, sediado em Ontario, Canadá, lideraram o estudo que registrou 36 casos de micção aérea em botos machos. Os pesquisadores suspeitam que esse ato vai além de uma simples função fisiológica e cumpre um propósito social.
Em outras espécies animais, a urina é comumente usada como ferramenta de comunicação. Por exemplo, os peixes ciclídeos africanos (Astatotilapia burtoni) a utilizam para estabelecer dominância territorial, enquanto os caranguejos de rio usam sinais químicos em sua urina para demonstrar agressão.
No caso dos botos, essa prática poderia envolver uma sinalização complexa baseada em compostos químicos presentes na urina.

Como detectam os sinais da urina?
A descoberta levou os pesquisadores a levantarem várias hipóteses. Uma delas sugere que os pelos presentes no focinho dos botos poderiam ser fundamentais para detectar os sinais químicos na urina. Esses sinais poderiam conter informações sobre o estado físico, social ou reprodutivo dos golfinhos.
A teoria se baseia em estudos anteriores realizados com golfinhos nariz de garrafa (Tursiops truncatus), que demonstraram a capacidade de identificar outros indivíduos pelo sabor de sua urina.
Segundo um estudo de 2022 de Jason Bruck, pesquisador da Universidade Estadual Stephen F. Austin no Texas, esses golfinhos utilizam a língua para analisar a composição química da urina debaixo d’água. No entanto, Bruck questiona se os pelos do focinho dos botos são suficientes para processar sinais tão complexos.
O som é uma pista adicional?
Outra hipótese sugere que o som da urina ao cair na água poderia funcionar como um sinal acústico. Como os botos têm uma visão limitada, este ruído poderia guiar outros golfinhos até o local da análise.
Embora ainda não haja uma conclusão definitiva, os pesquisadores consideram que a micção aérea poderia ser uma forma inovadora de comunicação nos cetáceos, abrindo novas portas para entender seu comportamento social. Segundo Bruck, “a sinalização química ainda é uma fascinante fronteira no estudo dos golfinhos”.
Esta descoberta adiciona uma nova dimensão à compreensão dos golfinhos de rio e destaca a complexidade de suas interações sociais, ampliando as perspectivas sobre como os cetáceos utilizam o ambiente para se comunicar.
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