| A área da Baía Inútil, na região de Magallanes, continua a revelar sua surpreendente biodiversidade marinha. Uma publicação recente liderada por especialistas chilenos e argentinos documentou pela primeira vez para o Chile a presença da macroalga parda Microzonia velutina no ambiente submarino da Ilha Grande da Terra do Fogo, adicionando uma nova espécie à diversa flora ficológica do nosso país e ampliando seu alcance de distribuição na costa atlântica Argentina.
A descoberta ocorreu no contexto da expedição conjunta realizada em março de 2025 entre pesquisadores do Programa Marinho da Fundação Rewilding Chile e CADIC-CONICET de Ushuaia, além de profissionais encarregados de filmagens submarinas e terrestres, com o objetivo de caracterizar a biodiversidade associada a florestas fueguinas de Macrocystis pyrifera (huiro ou sargaço).
Para isso, foram realizados mergulhos exploratórios entre 3 e 6 metros em três locais de amostragem, dois na Baía Inútil, lado chileno da Ilha Grande de Terra Argentina, e um no setor argentino da Baía Aguirre, na Península Mitre.
Em relação à importância do registro, Mathias Hüne, Diretor do Programa Marinho de Rewilding Chile, destacou:
“No contexto da crise climática, ampliar o conhecimento sobre a biodiversidade marinha em altas latitudes é fundamental para sustentar estratégias de conservação e reforça o valor biogeográfico da Terra do Fogo e em particular da Baía Inútil, como zona chave para a diversidade subantártica”.
A análise dos resultados da expedição foi publicada na prestigiosa revista alemã Botânica Marina -a mais clássica em sua especialidade- como “New records of Microzonia velutina (Syringodermatales, Ochrophyta) in Isla Grande de Tierra del Fuego in the sub-Antarctic region”.
Seus autores são Mauricio Palacios, pesquisador associado da Fundação Rewilding Chile; Julieta Kaminsky, do CADIC CONICET de Ushuaia; Mathias Hüne, diretor do Programa Marinho de Rewilding Chile; os ecólogos e taxonomistas Erasmo Macaya da Universidade de Concepción e Alicia Boraso, referência no estudo de macroalgas na Argentina, da Universidade Nacional da Patagônia, junto ao fotógrafo submarino Mariano Rodríguez da Universidade Nacional da Terra do Fogo.
Em todos os pontos de amostragem, Microzonia velutina foi observada como parte da flora do sub-bosque em substratos rochosos sob florestas de huiro.
Ao contrário dos alongados huiros, cujas florestas submarinas podem medir até 80 metros, esta pequena macroalga, com forma de leque, não ultrapassa os 3 centímetros de altura e destaca-se por sua cor marrom oliváceo com pigmentação iridescente nas bordas.
“Não é fácil de ver, porque é bem pequena e alguém poderia pensar que pode ser um fungo como os que encontramos nas florestas terrestres, mas é uma macroalga. Para poder encontrá-la é preciso procurá-la com intenção, não é fácil de ver, mas quando a encontramos é muito característica a forma que tem assim de leque, com umas pequenas linhas e cresce bem pertinho do substrato da rocha”, indica Julieta Kaminsky, pesquisadora do CADIC-CONICET de Ushuaia.
“Em termos gerais, é uma espécie relativamente pouco comum e pouco conhecida, mais típica na Nova Zelândia, mas não abundante, com apenas dois registros no hemisfério sul, particularmente na costa atlântica da Argentina”, explica Mauricio Palacios, pesquisador associado de Rewilding Chile. “Sabemos pouco de sua morfologia externa, seu ciclo de vida, de seus hábitos, por que está aqui e não em outro lugar, etc.”, complementa.
Na expedição foram coletados talos completos da pequena macroalga e foi realizada sua identificação com base na morfologia externa e interna, “a olho nu”, como especifica Julieta Kaminsky para descrever o método.
“Depois fazemos pequenos cortes que nos permitem observar na lupa ou no microscópio óptico e a partir de diferentes características que são específicas ou particulares e comparando com outros exemplares que se pareciam da Argentina e outros lugares do mundo podemos saber a qual espécie corresponde”, acrescenta. Uma vez identificados, três exemplares foram preservados no herbário realizado que mantém Rewilding Chile. |