Em dezembro de 2024, uma equipe científica capturou 191 exemplares do Aedes aegypti var. queenslandensis em um fragmento de floresta urbana em Macapá, no norte do Brasil. Esta variedade, conhecida como “mosquito pálido”, apresenta escamas mais claras no abdômen e no tórax, o que pode dificultar sua identificação visual.
“Não se trata de uma subespécie nem de um novo vetor, mas de uma variação morfológica do mesmo mosquito”, explicou José Ferreira Saraiva, pesquisador do Instituto de Pesquisas Científicas e Tecnológicas do Amapá (IEPA).
O que implica esta variação do Aedes aegypti?
Maior resiliência ao calor e menor sazonalidade na transmissão de arbovírus.
Embora não haja evidências de que esta variedade tenha maior capacidade de transmissão nem resistência a inseticidas, sua presença em regiões quentes e urbanizadas como o Sudeste Asiático, Austrália e o Mediterrâneo sugere uma adaptação ao calor e baixa umidade.
Isso poderia ampliar as janelas de transmissão de doenças como o dengue, zika, chikungunya e febre amarela.
“A variedade pálida pode reduzir a sazonalidade e aumentar a persistência do mosquito em zonas urbanas”, advertiu Saraiva.

Aumento de casos e necessidade de vigilância entomológica
Entre janeiro e setembro de 2025, o Brasil registrou mais de 1,6 milhão de casos prováveis de dengue, com 1.665 mortes confirmadas. Em Amapá, os casos passaram de 620 em 2023 para 5.071 em 2024, o que reforça a necessidade de fortalecer a vigilância epidemiológica e entomológica.
“É fundamental capacitar as equipes para reconhecer o fenótipo pálido e comunicar ao público que o mosquito da dengue também pode ser esbranquiçado”, destacou Saraiva.
Mudança climática e expansão do mosquito
Simulações projetam um aumento de até 92% no sudeste do Brasil para 2080.
Um estudo publicado em PLOS Neglected Tropical Diseases combinou modelos biológicos do ciclo de vida do mosquito com projeções climáticas e urbanas.
Em cenários de altas emissões de gases de efeito estufa, projeta-se um aumento significativo da densidade de mosquitos no sul e sudeste do Brasil.
- Sudeste: +92%
- Sul: +89%
- Norte: sem aumento, mas por calor extremo que supera a tolerância do mosquito
“A mitigação da mudança climática pode reduzir o aumento projetado de 30% para 10%”, explicou Katie Heath, pesquisadora do Instituto Burnet.
Preparação local e decisões globais
A planejamento climático influencia diretamente na saúde pública futura.
O estudo serve como mapa para a preparação local e como lembrete de que as decisões climáticas atuais determinarão o impacto das doenças transmitidas por mosquitos nas próximas décadas.



