A energia limpa pode colocar os ecossistemas em risco?: lítio, o outro lado da transição energética.

No coração do deserto de Atacama, a extração de lítio avança ao ritmo da demanda global por baterias para carros elétricos e tecnologias renováveis. Mas esse progresso tem um custo que já se faz sentir nas comunidades andinas: a água escasseia, a flora morre e as aves migratórias deixam de se reproduzir.

A mineração de lítio no Chile está concentrada nos salares, grandes depósitos de salmoura subterrânea rica em minerais. Sua extração requer bombear grandes quantidades de água, o que gerou preocupações pelo impacto ambiental em uma região já afetada pela seca.

Os habitantes locais denunciam que, desde o início dessa atividade, o lençol freático baixou, os pântanos secaram e espécies como os flamingos viram suas populações reduzidas por falta de alimento. A biodiversidade e o modo de vida ancestral estão sendo alterados.

O governo chileno está promovendo uma estratégia nacional para aumentar a produção, ao mesmo tempo em que promete incorporar tecnologias menos prejudiciais. No entanto, muitos habitantes temem que seus territórios se tornem laboratórios naturais e que os impactos a longo prazo sejam irreversíveis.

![Deserto de Atacama, Chile.](https://storage.googleapis.com/media-cloud-na/2023/06/desierto-de-atacama-300×188.jpeg)

## Extração verde: ¿realmente possível?

As empresas afirmam estar trabalhando em métodos de menor impacto, como tecnologias que permitem recuperar água evaporada ou extrair lítio sem usar piscinas de evaporação. Embora alguns testes piloto tenham mostrado resultados, sua implementação em grande escala ainda não é uma realidade.

As comunidades exigem avaliações de impacto social mais profundas, participação na tomada de decisões e respeito pelo equilíbrio ambiental. Apontam que não basta distribuir benefícios econômicos se o ambiente ficar degradado e suas formas de vida ameaçadas.

Esse conflito reflete uma contradição global: o lítio é essencial para descarbonizar a economia, mas sua obtenção pode danificar seriamente ecossistemas frágeis se não for gerenciada com responsabilidade e justiça ambiental.

![Extração de lítio no Chile. Foto: El Ciudadano.](https://storage.googleapis.com/media-cloud-na/2025/07/litio.jpg)

## Impacto ambiental da extração de lítio

A exploração de lítio em salares como o de Atacama implica remover salmoura do subsolo, o que altera os fluxos hídricos subterrâneos. Essa salmoura leva séculos para se formar e é fundamental para manter a umidade em pântanos e lagunas.

A redução da água disponível afeta diretamente espécies endêmicas, como o flamingo andino, e enfraquece a vegetação nativa, como os algarrobos, que desde 2013 apresentam sinais de deterioração. Isso repercute na cadeia alimentar e no sustento das comunidades locais.

Além disso, a extração envolve transporte, evaporação de água e resíduos químicos que podem contaminar o ambiente. Apesar de o lítio desempenhar um papel importante na transição energética, sua extração ainda não é uma atividade isenta de consequências ambientais. A urgência está em equilibrar desenvolvimento com conservação.

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