Após o caso de uma menina com dano genético, a Justiça de Entre Ríos proíbe as pulverizações com drones

A Justiça de Entre Ríos emitiu uma medida inédita em matéria ambiental: proibiu as pulverizações com drones em campos adjacentes a uma residência de Aldea Salto, departamento Diamante, após a denúncia de um pai cuja filha de 12 anos sofre de “dano genotóxico crônico” vinculado à exposição a agroquímicos.

A resolução foi assinada pela juíza Adriana Acevedo, membro da Câmara de Contencioso Administrativo de Paraná, que ordenou suspender o uso de veículos aéreos não tripulados (VANT) para pulverizações na área até que se resolva o mérito da demanda.

Uma menina, um diagnóstico e uma reivindicação

O caso foi impulsionado por Gerardo Gareis, pai da menor afetada, que apresentou uma ação de amparo ambiental representado pelos advogados Aldana Sasia e Lisandro Garabentos.

Os estudos genéticos confirmaram que a menina apresenta dano genotóxico crônico, uma alteração celular que pode levar a doenças graves e que os laudos periciais vinculam à exposição constante a agroquímicos.

Em seu pedido judicial, Gareis reivindicou que se proíbam as aplicações dentro de um raio de 1.000 metros para pulverizações terrestres e 3.000 metros para as aéreas ou com drones.

Uma decisão que questiona a lei vigente

A juíza Acevedo deu como comprovado o dano à saúde da menina e sublinhou que os requisitos legais para o uso de drones agrícolas — como inscrição, registro e habilitação — não estão implementados em Entre Ríos, o que torna sua utilização atual ilegal.

A medida cautelar estará em vigor até que se emita uma sentença definitiva que determine as “zonas de proteção conforme o padrão científico e constitucional”. Além disso, a magistrada analisará a possível inconstitucionalidade dos artigos 63° e 66° da Lei de Agroquímicos N.º 11.178 e seu Decreto Regulamentar N.º 1719/2025, por considerar que violam direitos fundamentais como a saúde, o ambiente saudável e a proteção de crianças e adolescentes.

Atualmente, a norma provincial estabelece distâncias mínimas de apenas 10 metros para mochilas ou drones, 100 metros para pulverizações terrestres e 200 metros para aéreas com aviões. Segundo a evidência científica, essas distâncias são insuficientes para proteger a saúde humana.

Utilização de drone na agricultura
A Justiça de Entre Ríos proíbe a utilização de drone na agricultura.

Tecnologia sem controle e vazio legal sobre as pulverizações com drones

O caso expõe um vazio regulatório que preocupa. Em Entre Ríos, como em outras províncias argentinas, os drones aplicadores de agroquímicos ainda não contam com um marco técnico e legal claro:

  • Não existem registros específicos.
  • Não foram aprovados protocolos de habilitação.
  • As etiquetas de produtos fitossanitários não contemplam seu uso com drones.

Enquanto o agronegócio incorpora novas tecnologias para aumentar a eficiência, a legislação avança mais lentamente que a realidade produtiva, deixando sem proteção efetiva as comunidades rurais.

Saúde, ambiente e modelo produtivo

A resolução judicial não só protege uma família, mas também questiona o modelo agroindustrial baseado no uso intensivo de agroquímicos, que durante anos se expandiu sem avaliar seus impactos sobre a saúde e o ambiente.

Organizações socioambientais e de direitos humanos celebraram a decisão como um precedente histórico, que reconhece o princípio da precaução e a prioridade do direito a um ambiente saudável sobre a rentabilidade agrícola.

Para a juíza Acevedo, o Estado deve garantir que os avanços tecnológicos sejam acompanhados de políticas públicas que protejam a vida e a saúde da população, especialmente dos setores mais vulneráveis como crianças.

Um antes e um depois na regulamentação

Embora a medida cautelar alcance por enquanto apenas os campos de Aldea Salto, seu alcance simbólico e jurídico é muito maior. Abre a porta para que outras comunidades reivindiquem zonas de exclusão mais amplas e controles efetivos sobre as pulverizações.

A decisão poderia se tornar jurisprudência em futuros casos ambientais que questionem o uso de drones ou a escassa regulamentação dos agroquímicos em diferentes províncias.

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